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Mas alguém perguntou qual seria o vencimento base de uma carreira horizontal???

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Resolvi publicar o comentário do Mário Silva no dia de ontem, exatamente para levantar o debate, esta casa é para isto mesmo, pensarmos um bocadinho, debatermos, discordarmos e concordarmos, um exercício de democracia. O que vos peço ao lerem as próximas linhas é exatamente isso, um momento de democracia e reflexão.

As reações foram as mais diversas e caiu-se imediatamente no erro de medir disciplinas, tentando provar qual a disciplina mais desgraçada de todas. Depois surgiu a luta do costume, de professores mais experientes com menos experientes, como se a idade fosse algum certificado de qualidade, quer para novos ou menos novos. Curioso como dos diversos comentários que li, apenas uma pessoa perguntou qual seria o vencimento base? Gostaria de ver a reação de todos os que apontaram o dedo à carreira horizontal, se a realidade nos trouxesse uma prenda em que o vencimento base seria o topo da carreira, aí já ninguém estrebuchava…

Os professores são professores e têm especificidades próprias inerentes à sua área curricular e que não podem entrar neste debate. Ninguém terá razão e todos terão motivos de queixa. O principal argumento eram os testes, se vamos por esse caminho, temos então de incluir a tipologia dos testes, o tamanho das turmas, o número das turmas, o número de alunos de Educação Especial, e porque não, se as turmas são indisciplinadas, se os pais são complicados, a assiduidade dos alunos, o desempenho dos alunos, etc, etc,etc… Existem dezenas de fatores que podem tornar um ano letivo um inferno ou apenas uma leve brisa marítima.

Não concordo que a idade seja o fator decisivo para a progressão na carreira e como gosto de ser frontal, digo que a nossa carreira não valoriza o mérito mas valoriza a experiência. Isto é muito confortável para quem está lá em cima, mas para quem está cá em baixo e sabe que já não vai chegar lá acima, o incomodo é um bocado maior. Principalmente quando ano após ano assistimos a professores que trabalham mais, têm mais responsabilidades e auferem bastante menos.

É mentira o que estou a dizer?

A minha proposta para vencimento único MÍNIMO e LÍQUIDO seriam os 1500€, naturalmente que haveria diferenças pois existe sempre a questão do número de titulares e os filhos, mas nenhum professor poderia ganhar menos do que 1500€ líquidos. Estou por isso a apontar para o 5º/6º escalão. Se tivermos em consideração que é na primeira metade da carreira que o professor cidadão tem mais despesas, para mim faz todo o sentido que exista um reforço nessa fase. De que me adianta estar no 10º escalão já com os filhos formados e independentes?

Haveria naturalmente aumentos salariais, mas estes seriam decretados nos moldes atuais e que infelizmente desapareceram há uns 20 anos…

É preciso colocar nos pratos da balança o número de anos que demoramos a chegar ao 5º/6º escalão e o número de anos que permanecemos nos restantes. Pergunto-vos, preferem um aumento progressivo ou um ordenado constante ao longo da carreira? Pessoalmente prefiro um ordenado constante, desde que começasse um pouco acima do meio da carreira.

Porém, não ficava por aqui, haveria certos cargos que em vez de terem redução da componente letiva (ex: direção de turma), haveria uma compensação financeira. Cargos que todos sabemos os professores preferem não ter, pois implicam tempo e maior responsabilidade e este tempo e esta responsabilidade devem ser pagos. Se isto fosse uma realidade queria ver se alguns continuavam a fugir a estes cargos como o diabo da cruz, deixando muitas vezes a fava para quem vem de fora ou para aqueles que têm perfil para tudo…

Mais uma vez, é mentira o que estou a dizer?

Sou também sensível ao argumento que a nossa profissão tem um elevado desgaste e nota-se mais com o avanço da idade, mas se o desgaste é efetivo, não é o dinheiro que traz menos desgaste, é a número de aulas que se dá. Deve por isso manter-se a redução do número de turmas, sendo substituída por outro tipo de trabalho, nomeadamente o apoio a alunos com dificuldades ou um regime de codocência.

Naturalmente que este meu mundo nunca será aplicado pois nunca será aceite pelo Ministério das Finanças, não estive a fazer contas, mas parece-me que ficávamos a ganhar se somássemos todos os ordenados da carreira.

Porém, não posso concordar com tantos escalões numa carreira que tem na sua génese o mesmo conteúdo funcional. Se o meu mundo nunca será aplicado, ao menos que se comece a pensar em reduzir o número de escalões, não para nivelar por baixo, mas para valorizar a carreira docente e diminuir diferenças salariais que não correspondem à realidade do trabalho realizado.

Alexandre Henriques

 

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15 COMENTÁRIOS

  1. ” De que me adianta estar no 10º escalão já com os filhos formados e independentes?”

    O quê?!

    Já li muitos argumentos, mas este é …é……incompreensível.

    • Se a Ana prefere ganhar menos quando precisa mais é uma opção sua, eu prefiro ganhar mais quando preciso mais… Isto é incompreensível? Pode não concordar, agora não percebo que não perceba…

      • A realidade não é assim tão simplista, Alexandre.
        Alguns contra- argumentos :

        – com a maternidade cada vez mais adiada, é cada vez + frequente os filhos ainda não serem independentes e /ou formados, pelo que continuam a ser apoiados pelos pais. É a “kangaroo generation” ou o “Hotel Mama”;

        – com o avançar da idade, vêm mais problemas físicos e mentais;

        – é frequente o outro elemento do casal estar desempregado e com subsídio de desemprego ou já não, e a reforma ser muito insuficiente;

        – é frequente, tb, dar-se o caso de se pertencer a uma “sandwich generation” – no meio entre os pais já velhotes e a precisarem de serem cuidados e os descendentes, tb a precisarem de apoio.

        Não concorda com estes argumentos?

        • Concordo. Mas não se esqueça que o grosso das despesas de qualquer agregado familiar é a casa e os filhos. Um filho para tirar um curso superior custa mais de 30 mil euros e há bem pouco tempo falei disso. Para mim não faz sentido existir uma diferença tão grande entre o início e o topo da carreira. Portugal tem ordenados bons para o topo da carreira docente em comparação com outros países, mas em inicio de carreira estão claramente abaixo. A questão central e mais realista, será diminuir esta diferença. A carreira horizontal nunca irá acontecer, tenho a perfeita consciência disso, mas gosto de levantar questões e pôr as pessoas a pensar, mesmo correndo o risco de ser criticado. Obrigado pela argumentação Ana.

          • “A carreira horizontal nunca irá acontecer.” Esta afirmação não corresponde à realidade porque a carreira horizontal já está acontecer para uns quantos milhares de profs: com a barreira das vagas para acesso aos escalões, esses profs manter-se-ão horizontalmente sempre nos mesmos escalões (4º ou 6º).

        • Uma sociedade em que os jovens não conseguem ser independentes, estabelecendo o normativo social de continuarem dependentes financeiramente dos pais, é uma sociedade falhada. Mas estes argumentos não refutam o que foi exposto: quando se aufere salário mais baixo e se suportam as despesas familiares mais pesadas, não se constitui poupança e vive-se no limite, pelo que a situação ainda se agravará mais quando, ainda estando a ganhar pelos escalões mais baixos, continuar a ter os filhos adultos em casa. Se a esta situação adicionar a fase ‘sanduíche’ (cuidar dos filhos adultos e dos pais), a degradação da saúde com a idade, outros azares (desemprego, doença,….) e o valor da pensão de reforma ser condicionado pelos muitos anos a ganhar o mesmo, eu pergunto como vai ser possível viver com alguma qualidade de vida, a geração de profs que não passarão para além do 6º escalão…

          • ah! e acrescente-se os muitos docentes que estão a trabalhar a dezenas de kms da sua residência, acrescentando mais esta despesa mensal equivalente a uma renda de uma habitação, para custear a utilização do automóvel.
            Uma coisa é estar no 1º a 6º escalão a suportar isto tudo e outra é estar no 7º a 9º…

  2. Só gostaria de terminar afirmando que TODOS precisamos de melhores salários, melhor SNS, melhores lares e pessoal especializado em doenças geriátricas e/ou crianças e jovens, mais tempo livre para recuperar forças e estar com a “framily”.

    Apontei alguns argumentos embora não goste nada, mas mesmo nada deste tipo de argumentação e contra-argumentação.

    Senti somente que não poderia deixar a sua frase sem resposta.

    bj

  3. “Portugal tem ordenados bons para o topo da carreira docente em comparação com outros países”

    O Alexandre tem a certeza?

    • Em consideração com o rendimento per capita é o que dizem os estudos. Estou a falar do 10 escalão. Não digo que é excelente, mas acho que é bom.

    • Os estudos são feito com base em pressupostos errados. Pessoalmente conheço vários profs de outros países, e nomeadamente nos países nórdicos ou da europa central, o salário a meio da carreira aproxima-se daquela que temos no topo da carreira.

  4. Pensando numa hipotética mudança da carreira remuneratória para pessoas que exercem a mesma atividade profissional, propunha um índice remuneratório equivalente a €2400 de remuneração mensal bruta (que com uma determinada taxa de IRS, andaria no valor aproximado de €1500 líquidos), sendo este valor obtido através da média das remunerações brutas de todos os escalões.
    Eliminando os escalões, em contrapartida estabelecia-se redução da componente letiva e/ou remuneração (o melhor seriam as duas…) para um conjunto de cargos pedagógicos (coordenação, apoio pedagógico), tal como se faz para os cargos da direção. Outra condição, seria a atualização anual obrigatória do salário, no mínimo, de acordo com a inflação.
    Em momentos críticos, são necessárias soluções novas e esta seria uma das propostas ao governo, sabendo que este quer estabilidade anual de despesa; com este modelo, qualquer governo tem garantido um intervalo de despesa conhecido. Além disso, eliminavam-se discrepâncias salariais dentro da mesma profissão e discriminação negativa de expetativas (em que uma geração consegue progredir e outra pode ser impedida, consoante o ambiente económico; ou seja, havia uma proteção em relação às variações aleatórias da economia).
    Obviamente que isto é hipotético e de certeza que existem outras soluções diferentes (provavelmente melhores), mas nas condições atuais, com o grupo de professores sindicalistas que temos, este tipo de propostas é visto com hostilidade ou paternalismo ou indiferença. Mas manter este modelo, significa uma terrível discriminação negativa entre gerações de professores, em que uma conseguiu percorrer a carreira até ao topo e outra fica impedida definitivamente de o conseguir.

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