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A verdade sobre o dia “livre” dos professores.

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(aviso: a minha verdade não é a verdade, é a minha verdade, a minha realidade ou perceção da realidade, não é a única realidade, é a minha realidade…)

Comecemos pelo termo livre, livre significa liberdade para fazermos aquilo que nos vai na real gana, seja dar um passeio com a família, ir ao cinema, ou simplesmente ficar em casa a vegetar em frente à televisão. Livre seguramente não significa ficar a trabalhar em casa ou na escola a preparar aulas, corrigir testes, tirar faltas ou organizar dossiers…

Apesar da prática do dia livre ter sido abolida em várias escolas, esta mantém-se em tantas outras. Os professores deviam evitar dizer ao dia que não têm aulas, dia livre, não o fazem por maldade, mas dá a perceção de algo que na prática não o é…

Mas também é verdade que a flexibilidade que um horário docente permite dá muito jeito e por muito que nos queixemos da profissão docente, o facto de termos a possibilidade de ter uma manhã, tarde, ou dia sem componente letiva, é algo que nem todos podem ter. Uma simples ida ao banco, aos correios, ou ao médico, fica assim facilitada com esta ausência de componente letiva.

A questão do dia livre, ou de forma mais abrangente, dos horários, é matéria muito sensível para os professores, geradora até de algumas invejas e mal estar na sala dos professores. No início de cada ano, é “normal” os professores solicitarem às direções um horário com determinadas características. Também é verdade que alguns (poucos) o fazem apenas para ir ao encontro de certas “mordomias” supérfluas, seja acordar mais tarde ou concentrarem todas as suas aulas da parte da manhã, só porque sim… outros porém, fazem certos pedidos não por capricho mas por necessidade, como levar os filhos pequenos à escola, prestarem assistência a familiares, ou para permitir mais algumas horinhas com os seus entre queridos. Sobre estes últimos, é comum que o pedido do dia livre seja direccionado para as 2ª ou 6ª feiras. Um mero capricho? Seguramente que não…

Convém lembrar que a profissão docente, uma das mais nobres, ou que deveria ser uma das mais nobres da sociedade, é constituída por milhares de profissionais ao estilo nómada, saltitando ano após ano de escola, obrigando-os a galgar milhares de km todos os anos com todos os custos associados a serem pagos do seu bolso. Muitos e muitas, são pais, mães, filhos, filhas, maridos e esposas de fim de semana, obrigados a viver aos 40/50 anos de idade em quartos com outros colegas como se ainda estivessem nos anos loucos da faculdade…

Essas horas preciosas ao início ou final da semana são o suficiente para poderem dormir 3 noites por semana em casa, (já viram o luxo!?) sentindo o conforto do seu lar e proporcionando aos seus entes queridos alguma normalidade familiar…

Outros que solicitam o dia livre, fazem-no para pouparem alguns euros, pois é menos um dia que têm de galgar kms, consequência natural de quem preferiu sacrificar-se a si e ao seu carro, com viagens diárias e dispendiosas para continuarem a ser parte do agregado familiar, permitindo-lhes algo tão simples e banal como dar um beijo de boa noite ao(s) seu(s) filho(s) ou dormir abraçado ao seu cônjuge… aos outros só lhes resta a frieza do skype e o desejo ardente de que a semana passe depressa…

Esta “benesse” como alguns vêem paga-se caro, todo o tempo da componente individual do professor que é utilizado em viagens, apoio familiar ou na resolução de problemas do dia a dia, serão pagos com direito a juros, juros cobrados nas noites silenciosas, já depois da família ter apagado a luz para o seu merecido descanso, ou nas soalheiras tardes de fim de semana…

Por isso encaro o dia livre como um empréstimo bancário, variando o seu spread consoante as contingências familiares. A sua ausência em casa gera normalmente taxas de esforço muito elevadas e que se não tivermos cuidado podem levar ao fim do crédito, leia-se, paciência familiar…

Afirmo-o com todas as letras, os professores não devem nada a ninguém na sua carga laboral, os vizinhos quando nos vêem em casa em horário que era suposto estarmos na escola ficam naturalmente a pensar que “felizardos” que estes são… Mas o felizardo provavelmente deve estar mergulhado numa pilha de papeis no seu cantinho desarrumado e que deixam muitas vezes a cara metade irritada por tanto e tanto papel espalhado.

Exigir o melhor desempenho ao professor é legítimo, como também é legítimo o professor exigir melhores condições laborais para que o seu desempenho esteja ao nível das expectativas.

O dia livre, não é um luxo como muitos pensam, nem um feriado semanal, na grande maioria dos casos é até uma necessidade de que muitos preferiam abdicar. Tal como um boomerang, convém não esquecer que no final da semana as horas estão lá todas e concentrar em 4 dias toda a componente lectiva, chegando ao ponto de lecionar 8 tempos de aula no mesmo dia, pode ter um efeito contraproducente, recebendo o dito boomerang com uma força que se não tivermos cuidado pode deixar marcas a médio, longo prazo…

Alexandre Henriques

13 COMENTÁRIOS

  1. Há algum tempo, estive a fazer contas (e não consegui contabilizar as horas dedicadas a preparar aulas) e somando as horas da componente letiva com as de correção de testes (sou professora de português), cheguei à conclusão que só para estas duas coisas, trabalho 11horas e 50 minutos, cinco dias por semana. Imagino que para muitos colegas seja semelhante. Haja resistência e saúde para uma monstruosidade destas…

  2. Sou casado com uma professora e trabalho 38 horas por semana. No ano passado contei as horas de trabalho da minha mulher.
    Conclusão: Trabalho menos horas por semana que ela! Muitos fim de semana fico em casa porque ela está a ver testes e nesses dias não são 8 horas de trabalho são 10 ou 12h o que faz um fim de semana de 20 ou 22 horas de trabalho. Esses fim de semana são vários por período. Contabilizando isso e as horas a ver testes e preparar aulas até as tantas. Apesar de eu trabalhar mais no natal, na pascoa, no carnaval e uns dias de férias menos ainda trabalhei menos que a professora.
    Os professores deviam pressionar os sindicatos para lutarem por horário de 35h na Escola

  3. O ano passado resolvi contabilizar, durante uma semana, todas as horas que trabalho, para além daquelas que estão marcadas no horário e, numa semana, contabilizei cerca de 53 horas. Esforço-me por não trabalhar aos fins de semana, mas nem sempre consigo.

  4. Subscrevo inteiramente a realidade que a colega descreve, uma perspectiva muito bem definida de uma realidade que pesa a muitos e ignorada ou distorcida por muitos outros, por interesse, diga-se do poder político ou por desinteresse, também do mesmo e de outros, por inveja social. Agora quanto ao «conjugue» e o forte «galgar»…

  5. Outros há que, lecionando como docentes, assim não são considerados e, como consequência, para além de cumprirem o horário total ainda têm de “roubar ao seu tempo” tempo para preparar as aulas. Reporto-me concretamente aqueles que são considerados “técnicos” em termos de classificação e de docentes em termos reais (ex.: LGP).

  6. Não vale a pena andarmos a não dizer a verdade. Dia livre é dia livre, ponto. Quem o tem e quer trabalhar para a escola, trabalha. Se não quiser não trabalha. O trabalho fora da escola é gerido pelo próprio. Faz quando quer, quando pode ou quando lhe apetece. O tema “dia livre” não tem a ver com isso, nem sequer se os professores têm muito ou pouco trabalho. Sou professor e sei que temos todos muito trabalho, apesar de uns terem mais do que outros. Esse é um assunto muito importante, assim como outros, que devem ser discutidos, mas não têm a ver com dia livre.

  7. Concordo com tudo o que descreveu. Mas os professores do 1º CEB estão bem piores. Não há dia livre, nem hora livre e temos de viver!

  8. Na verdade dia livre é dia livre e eu, que sou professora do 1.o ciclo há 37 anos nunca tive 1 dia que fosse livre. À medida que os anos passaram o trabalho quadruplicou e eu continuei sem dia livre. Sabe colega quando escreveu sobre a sua verdade esqueceu-se de outras verdades bem piores do que a que descreve. No meu tempo tb se ia para a Madeira e Açores para vincularmo-nos, ou então para as Galinheiras e Musgueira. Sabe uma coisa … não podíamos dizer que não queríamos, como agora é possível fazer-se! Nem tivemos nunca um dia de liberdade. Estranho não?

  9. E o 1o ciclo????Parente pobre…nem dia,nem tarde, nem manhã ,nem nada….Aec no meio dos horários e todos os dias a sair às 17h30? Desses ninguém se lembra!!!

  10. A discussão é muito interessante. Já pensaram que o dia livre, ou seja, o dia sem actividades lectivas, porque se houver reuniões ou outras actividades teremos que comparecer, é muitas vezes para ir a consultas marcadas há meses, aos bancos, etc., etc. Eu conheço muita gente a quem basta dizer ao chefe que tem uma consulta e chega mais tarde ou sai mais cedo, sem justificar, sem stresses. verdade ´que ninguém me impede de ir a uma consulta, falto e pronto! Mas quais os custos? Eu fico sem um dia de férias e os alunos sem aulas. Acham mesmo que ter um dia sem actividades lectivas é uma benesse???

  11. Os colegas do primeiro ciclo esquecem-se que se podem dar ao luxo de fazer trocas ou, se chegarem atrasados, terem o diretor da escola, colegas ou funcionários a “cuidar” da turma enquanto não chegam. Vejo isso quando vou deixar a minha filha à escola. Experimentem fazer isso no 3° ciclo ou secundário a ver se os alunos estão à vossa espera! É mais um artigo a descontar…

  12. Neste momento, não penso só no conteúdo, mas também na forma. Foi escrito por um brasileiro que domina mal a sua língua, não? Quanto ao conteúdo, o erradamente denominado dia livre, é apenas livre da obrigatoriedade de ir ou estar na Escola, a não ser que haja reuniões. Como se compreende, não é tão livre como isso. Por outro lado, este “dia livre”é uma aquisição mais ou menos generalizada nos anos 90. Ainda nos anos 80, tínhamos o sábado com aulas, à excepção de algumas escolas – e falo do 3.º ciclo e secundário – como aquela onde estava na altura, em Miratejo. Saíamos era mais tarde das aulas, às 18h30. E, lamento, as prioridades para o tal “dia livre”, embora eu o tivesse tido a partir dos anos 90, quase sempre, não eram as que o autor do texto fala. Deveriam ser, mas não eram e hoje ainda menos são. Por exemplo, o facto de se estar afastado de casa, deveria ser o 1.º critério. Reparem, só estive afastada de casa (Lisboa, Lisboa) quando fiz o estágio em Santarém. Mas como os meus filhos tinham Pai, só ia a casa ao fim de semana e não trabalhava ao sábado – penso que por estar a fazer o estágio. Estamos ainda nos anos 70. Quando começou o Unificado, na Marquês de Pombal em Lisboa, tive um ano sem aulas à 2.ªf, mas não era o que hoje se considera dia livre. Era uma questão de horário e, lá está, aulas ao sábado toda a manhã, 2 horas de DT, muitas vezes (parte do tempo), passadas nos Pastéis de Belém, em grupo. Boa memória e bons tempos, a nível de camaradagem.
    Não vale a pena falarmos deste “dia livre” ou dos “4 meses de férias” uns com os outros, pois sabemos bem que não é uma coisa nem outra. É pena as lamentações, até a raiva, o rancor e a inveja (?) de não se ter nascido vinte anos ou trinta antes. Esquecemos que, assim sendo, hoje teríamos 50 ou 60 e tal (bem, sejamos sinceros,como eu).

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