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A Propósito De Violência Doméstica: Mas É Só Em Casa?

Há sempre um agressor e uma vítima nestas circunstâncias e, atenção, também trocam de lugar, a vítima passa a agressor porque protela a circunstância e o agressor torna-se vítima porque depende duma relação nada saudável.

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A expressão violência doméstica já de si é infeliz. Nem sequer deveria existir, nem sequer deveria ocorrer. O que é doméstico decorre em casa, na família. O que é facto é que o que é doméstico estende-se para lá dos limites do lar. A forma como se absorvem os conhecimentos, que trazem a personalidade à luz do mundo num temperamento que já lá estava, pode deformar esta visão de que o que é doméstico fica em casa. Nem sempre é assim. Se alargarmos o conceito, uma tareia em casa seja dada a quem for e por quem for é sempre assistida por outro, na maioria. E na maioria são crianças que assistem a esta dita violência doméstica, física, verbal, etc. Educamos pelo exemplo… e quantas asneiras fazemos neste processo de educação.

Quem assiste em casa ao desenlace de um ato violento vê, ouve, sente, usa todos os sentidos, emocionados e transformados em sentimentos que vão sendo construídos ao longo de uma vida. Socialmente a violência doméstica ainda é bastante encoberta, por medo, por vergonha, por sair da zona de conforto (sim, parece estranho, mas há formas estranhas de se “desamar”). Há crianças que presenciaram momentos destes e podem ter a capacidade de os transformar e passar à frente (cicatrizes sempre ficam), ou podem desencadear algo que já estava no seu temperamento e trazê-lo ao de cima e cometer a mesma atrocidade. Violência por muito que se tente explicar é inexplicável. Só se explica dentro do mapa mundo de cada um. Sim, o mapa mundial é o mesmo para todos, mas depois cada um tem o seu.

Quando atingem a idade para estabelecer relacionamentos amorosos, por vezes e muitas vezes por medo transportam o momento que vivenciaram em casa para fora e completam a sua relação com o mesmo fim violento. Nem precisa de ser uma tareia, por vezes só o facto de se tentar transformar o outro à imagem que o consideramos ideal já é violentar um ser. A forma como se veste deve mudar, a forma como se penteia deve mudar, os amigos que tem já não podem ser os mesmos e por aí fora.

Há sempre um agressor e uma vítima nestas circunstâncias e, atenção, também trocam de lugar, a vítima passa a agressor porque protela a circunstância e o agressor torna-se vítima porque depende duma relação nada saudável.

Quando estes atos ocorrem entre paredes, não se vê e prolongam-se relações sem nexo. O pedido de ajuda é amedrontado com ameaças pelo agressor ou pela própria vítima quando a mesma considera que não conseguirá seguir em frente sem o outro. No entanto, quando estas situações ocorrem em espaço aberto, à vista de todos, porque é que ninguém trava a situação? Estarão mais entretidos a filmar com os telemóveis para colocar nas redes sociais. Atenção, até pode ser com boa intenção de denunciar a situação publicamente… mas enquanto isso o outro é violentado, espancado, e nada se faz. Claro que depois são temas com milhentas visualizações nas redes sociais, nos media e sim são denunciados, mas por favor, na altura alguém que proteja a vítima de ser agredida e também o agressor de cometer um grande erro. É óbvio que depois todos ficamos a saber que mais uma jovem foi agredida pelo namorado (e vs) ou outra situação semelhante. Quando ocorre na escola a mesma deverá tomar medidas para que o Ministério da Educação tenha conhecimento destas situações e travá-las atempadamente.

Felizmente, cada vez mais situações de violência são denunciadas, mas serão penalizadas? Bem, em consciência já têm penalização bastante, no entanto a responsabilização do ato tem que ser concretizada. O agressor e a vítima devem também ser ajudados para que a vítima jamais volte a permitir a violência e o agressor que jamais volte a agredir. Porque por mais difícil que seja de se entender o agressor agride-se a ele próprio quando violenta física ou verbalmente a vítima.

Um processo deveras difícil, já que a origem destes atos poderá ser múltipla e a sociedade é demasiado intrincada para corrigir estes erros humanos. Todos somos capazes de os cometer. Jamais poderemos dizer que seríamos incapazes de tal ato maléfico, ou de “atirar a primeira pedra” (frase milenarmente conhecida, mas sempre atual).

Aquilo que aprendemos em casa, doméstico, transfere-se para a sociedade e quantas vezes estes atos nunca ocorreram em casa e vêm a ser domésticos um dia mais tarde?

Nenhum ser humano deve permitir a agressão física ou verbal. A violência “doméstica”, no namoro, na amizade, no trabalho, é algo que tem sempre a mesma origem: o facto de sermos capazes de tudo, dependendo das circunstâncias. Doméstico, apesar da definição da palavra, não é só em casa, aprende-se em qualquer lado, leva-se de casa para fora e de fora para casa.

Vera Silva

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