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A Procuradora não sabe procurar.

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A Procuradora não sabe procurar.

Não sabe procurar porque não sabe do que fala… coisa muito comum entre quem fala sobre educação em Portugal, infelizmente. É que mesmo para procurar é preciso saber o que se procura.

Não percebe que “carpinteiro” é uma qualificação de nível 2 e como tal nunca poderia corresponder diretamente a um curso secundário (que é, à partida, de nível 4). E esquece-se que o ensino é obrigatório até ao 12.º ano.

A Procuradora esquece-se que as profissões ditas “vocacionais” estão elas próprias cada vez mais complexas. Que a aprendizagem mestre-pupilo tão em voga na idade média é, atualmente um anacronismo que sobrevive em profissões muito, muito específicas e manuais (e.g. luthier) onde ainda faz sentido. Que a exigência de qualificações no mercado de trabalho aumentou enormemente.

A Procuradora não sabe que o mercado de trabalho mudou muito. Não sabe por exemplo que na “carpintaria” as máquinas CNC são habituais (e, portanto, considera que programação de máquinas CNC para madeira não é carpintaria!). Que as regras de segurança exigidas são elevadíssimas. Que é preciso saber ler desenhos técnicos. Não percebe que a carpintaria foi fortemente industrializada.

A Procuradora não sabe utilizar um motor de procura senão tinha encontrado o catálogo Nacional de Qualificações onde existem ofertas como Carpinteiro, Marceneiro, Canalizador, Pintor, Ladrilhador, etc.

A Procuradora nem sequer percebe que, provavelmente não anda à procura de um carpinteiro, mas de um marceneiro.

A Procuradora cinge-se ao seu pequeno mundo e às suas pequenas necessidades para extrapolar para todo um país. A procuradora tem provavelmente razão quando diz que não há carpinteiros em Lisboa. Pois se calhar também não há pastores… porque talvez não haja ovelhas. E as poucas que há não sustentam um pastor.

Advogando pelo Belzebu, por outro lado, provavelmente, há falta de profissionais qualificados em todas as áreas. Não é só na “carpintaria”. Pelos vistos na zona de Lisboa até já há falta de professores, vejam lá!

Mas especialmente a procuradora revela orgulhosamente os seus preconceitos, apelidando-os de reacionários, porque não se inibe de dar uma leitura negativa à profissão de carpinteiro. Nas suas próprias palavras “Um carpinteiro pode ganhar muito dinheiro” – como se não fosse natural um bom profissional ganhar muito dinheiro. Sugere até “Porque não terem cadeiras [aqui de facto dou-lhe razão: precisaria de um carpinteiro para fazer as cadeiras] ou disciplinas em que dão um grau de cultura. Cultivam as pessoas com cadeiras básicas [].” Aqui já no domínio da “agropecuária de seres humanos” vamos cultivar os futuros carpinteiros com cadeiras básicas de cultura. Porque é inconcebível para a Procuradora que um carpinteiro tenha cultura: a sua cultura. Apenas “cultura básica”. Vamos lá dar ao carpinteiro uma cultura básica que é mais do que suficiente e ignorar tudo o que ele aprende.

Só faltou a famosa expressão: “não podemos ser todos doutores”.

Ou talvez a tirada do contexto: eu não sou anticarpinteiros, até tenho amigos que são carpinteiros!

É por pessoas assim que olham para quem opta por uma profissão como algo inferior que deve ser colmatado com uma injeção de “cultura básica” que este país está como está. Valoriza-se a “alta cultura”, mas outras culturas são completamente desvalorizadas pelos intelectualoides de esquerda, de direita, fascistas e maoístas e tolera-se a sua existência com injeções de “cultura básica”.

Ser carpinteiro não é mutuamente exclusivo de ser culto. Ser carpinteiro é uma cultura diferente. E não é nada básica. E é isso que a Procuradora não percebe.

O saber não ocupa lugar, mas a aprendizagem ocupa tempo. Tempo de professores e alunos. Se está a aprender Kant, provavelmente não tem tempo para aprender G-Code. Se está a aprender como fazer uma cofragem não tem provavelmente tempo para estudar álgebra de Boole.

Em Portugal não há respeito pelo saber. Não há respeito pela aprendizagem. Não há respeito por quem exerce a profissão que aprendeu com competência. Mas nós professores já tínhamos noção deste facto em primeira mão há muito tempo.

Sugiro pois à senhora Procuradora que vá procurar formação na UFCD TIC_B1_D – Usar a Internet para obter informação
Estou certo que alguma empresa de formação profissional em Lisboa tem oferta nesta área. É mais provável que pastorícia …

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