Início Escola A Grande Balbúrdia, A Que Chamam Inclusão

A Grande Balbúrdia, A Que Chamam Inclusão

16926
7
COMPARTILHE

No início deste ano lectivo, ecoam os violinos líricos da inclusão, das metodologias diferenciadas e da flexibilidade a galope. Porém, para a geração dos “professores do século XIX”, sarcasticamente ferrados de “mortos” pelo iminente pedagogo da Escola da Ponte, tudo fede a coisa já vista (área-escola, área de projecto, gestão flexível do currículo e projectos curriculares de turma) e falhada. As aulas expositivas, proscritas pela modernidade bacoca de João Costa e dos seus prosélitos, estão longe de ser recurso único da geração mais velha dos professores portugueses. Quem guarde memória de tempos menos frenéticos, viu-os sempre empenhados em actividades transdisciplinares, mobilizadoras de saberes diversos e geradoras de inovação. Fossem eles simplesmente “passadistas”, como se teria chegado à era digital? Quem os pretende domesticar hoje com algoritmos pedagógicos toscos e absurdas flexibilidades, deveria considerar esta perspectiva.

Das festividades fátuas actuais sobressai um excelente diploma sobre educação inclusivaO que o atrapalha é a realidade: as escolas que temos, os meios que não temos e os alunos que existem com necessidades educativas especiais severas (assim continuarei a designá-las). Dito de outro modo, se o modelo tivesse sido pensado a partir das realidades, que não de abstracções e de teorias diletantes, teríamos melhorado o que existia. Assim, retrocedemos. Embora habituados, custa.

Ter todos dentro da escola é um excelente princípio, que nenhum civilizado contesta. Mas os demagogos iludem, em nome do populismo pedagógico, a necessidade de dotar a escola dos meios, humanos e materiais, para que ela seja uma via de inclusão. E mais que isso (ou pelo menos a par disso), a dura realidade da vida impõe que reconheçamos que uma escola igual para todos é uma abstracção utópica, inconciliável com a circunstância de termos muitos, à entrada, que nunca poderão ser iguais aos outros, lá dentro. Trabalhar a diversidade supõe, numa escola forçosamente orientada para as massas, sair, em situações extremas, dos ambientes de homogeneidade, voltando a eles quando seriamente for viável. Isso é perseguir a integração possível. Outra via, qual seja a de fingir que determinados alunos podem dar respostas que sabemos que nunca poderão dar, pedindo do mesmo passo aos restantes que fiquem parados, é (afirmação politicamente incorrecta) promover a exclusão dupla.

Ou a inclusão é pensada a partir das realidades dos alunos, ou a inclusão é pensada a partir do discurso dos teóricos. No primeiro caso, cabe à escola descobrir soluções. No segundo basta-lhe aceitar imposições. Difere o grau de responsabilidade política quando o que se faz é por ignorância ou por consciente demagogia. Mas a consequência para os que nasceram diferentes é a mesma: ficam para trás, em nome de uma falsa inclusão.

Recentemente, foi tornado público o caso de um aluno do 10.º ano, com problemas do foro físico e psíquico, que originam dificuldades severas de aprendizagem. Este aluno, no contexto anterior, estava a tempo inteiro numa sala de actividades consideradas adequadas ao seu quadro, na sede do agrupamento a que pertence, acompanhado por uma equipa de Educação Especial (terminologia agora proscrita) e só era integrado na turma correspondente nas aulas de Educação Física. O que mudou para ele este ano e até ao momento? Foi “integrado” na turma “normal” do 10.º ano da escola secundária respectiva, onde o confrontam com disciplinas que nunca teve, nada lhe dizem, nem podem dizer. O apoio pedagógico é-lhe agora dado por um professor de Educação Inclusiva (terminologia do século XXI) que, por mais competente e esforçado que seja, não pode contar com o vínculo relacional e afectivo, extremamente crítico nestes casos, que já ligava a anterior equipa a este jovem. Deixou de frequentar as anteriores sessões de equitação terapêutica, determinantes para o seu equilíbrio psíquico. O aluno está revoltado, chora e começou a recusar a escola. Eu, do século passado, compreendo-o bem. Mas os normativos modernos dizem que é por aqui que vamos.

Santana Castilho, in Público 3-10-2018

COMPARTILHE

7 COMENTÁRIOS

  1. Já alguém reparou que há docentes de ensino especial (doutorados e mestrados), que dentro de 2 ou 3 anos ficam sem colocação por causa desta nova forma de funcionar?

    • Já existe quem ficou sem colocação à 3 e 4 anos atrás. Pena é nunca se ter apercebido que foram substituídos por gente formada em 3 e 4 meses em nome da crise. Um pouco de realidade para o bem de todos é o que se espera…

  2. Triste… e esta nova linha continua ativa. Ninguém consegue mudar estas balelas? Está tudo a lamber o raabbe ao governo? Onde estão os Diretores, Sindicatos e Conselho de Escolas?

  3. Bem….preso por ter gato e preso por ter cão! Realmente o único problema é que se lança a teoria sem paralelamente e simultaneamente alterar a prática!….Concordo com a integração mas casos demasiados severos deveriam realmente ter diria…. uma educação especial integrativa!…Se a nova política é integrar tudo, então venham as aulas com 2 ou 3 professores em simultâneo, podendo ser um misto de professor + técnicos especializados. Agora sozinhos e começar TD de novo ou mudar de forma brusca o que já foi construído é que não!

  4. Incrível numa escola terem uma aluna que está
    numa cadeira de rodas, não fala, precisa que lhe mudem a fralda e nem sei como a alimentam. As assistentes operacionais fazem o trabalho de auxiliares na área educativa e, simultâneamente, na área da saúde. Duas áreas exigentes e que requerem exclusividade. Pelo menos que não se exerça em simultâneo, como neste caso. Isto sim é uma grande balbúrdia. Uma autêntica anedota. Depois disto nada mais me surpreende nesta matéria da inclusão.

  5. Parabéns ao Dr. Santana Castilho
    Ao ler o seu comentário pensei que teria a capacidade de me ler a mente. O meu discurso entre a escola e casa foi todo no sentido das suas palavras. De facto, a melhor palavra para descrever a nova realidade curricular é “Balbúrdia”, isto para sermos bem educados. Quais mentes iluminadas, que de ensino-aprendizagem nada percebem mas onde se consideram muito doutos se “atrevem” a impor uma reorganização curricular onde os principais atores (os professores) não são tidos nem achados? Escola Inclusiva!!! É para rir. Estão a criar uma escola EXCLUSIVA. Eu explico: é exclusiva porque quem puder pagar vai procurar bons colégios onde os filhos possam a prender, exclusiva porque dificulta o desenvolvimento dos alunos com maiores capacidades já que se privilegia o mediano/medíocre, exclusiva porque está a criar as bases de uma sociedade onde ninguém vai saber nada de nada, onde são poucos o que aprendem a dar valor ao trabalho e onde serão muito poucos aqueles que alguém quererá empregar. Que sociedade estamos nós a criar? Que futuro nos reserva? Até tenho medo da resposta. Que pais temos nós? pais apenas interessados que os seus filhos fiquem no armazém (escola) até ao último minuto possível do dia. Sim, tomara conta dos filhos, educá-los é muito chato, dá muito trabalho!!. Por isso mesmo acho que o nome dos professores deveria passar a ser “amas-secas” porque é apenas e somente aquilo que eles são. Isto para não falar do tempo de serviço não contado e da situação de outros, como eu, que voltaram a congelar, isto é, como aguardam vaga para o escalão a que têm direito não contam , entretanto, qualquer tempo de serviço.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here