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A Geração Do Facilitismo

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«…da generalização do facilitismo que acabará por gerar cidadãos pouco responsáveis na sua vida profissional e familiar.

Normalmente, só em circunstâncias muito excecionais, retenho um aluno meu e já lá vão 28 anos de serviço. Obviamente, quando o aluno falta sistematicamente às aulas, é desinteressado e desrespeitoso, deixa os testes em branco, é praticamente impossível, inventar uma fórmula “milagrosa”, fazendo com que esse aluno transite para o ano seguinte, não obstante a burocracia e papelada que temos que preencher e que torna cada vez mais reduzida a hipótese que o professor tem de não aprovar o aluno.
Mas há casos de manifesto desinteresse pela escola e pela disciplina, que nos deixam muitas vezes a pensar que, se aprovarmos um aluno que não é cumpridor, não é respeitoso e falta sistematicamente, não estaremos a ser injustos para com os alunos cumpridores e empenhados, que consideram que a escola pode interferir positivamente no seu futuro.
Eu percebo o raciocínio do Estado: a União Europeia exige sucesso educativo, ainda que o mesmo seja artificial, para não “fechar a torneira dos fundos comunitários”. O Estado exige às escolas sucesso educativo obrigatório e para isso “entope-as” de papelada que reforçam o controlo burocrático sobre o trabalho dos docentes, que passam a vida a preencher papéis para justificar determinados níveis atribuídos aos alunos, quando deveriam usufruir de tempo para pensar e planificar as aulas.
O resultado de todo este processo, é professores cansados, saturados e um sucesso educativo que não é real, antes superficial. Para não chumbar um aluno, e não me meter em “sarilhos”, tenho que baixar e muito, os objetivos do programa, adaptando-o àquilo que o aluno efetivamente sabe fazer, para conseguir ter sucesso mínimo. Tenho que valorizar outros aspetos, que têm a sua importância, como “atitudes e valores” para que o aluno chegue ao objetivo mínimo que permita a passagem. E isto passa-se com a generalidade dos meus colegas.
O problema disto é quando os alunos se aperceberem que passam em qualquer circunstância, quer estudem, quer não estudem. Quer respeitem os professores, quer os maltratem. Quer apareçam às aulas, quer fiquem em casa. Quer apareçam para fazer os testes, quer decidam não aparecer.
Enfim, não sei o que possa dizer. Mas tudo isto é muito estranho e não me parece que a generalização do facilitismo, vá ajudar os alunos, no futuro, a integrarem-se no mercado de trabalho e a serem cidadãos responsáveis e empenhados, na sua vida profissional e particular. Mas isso, sou eu a pensar.»

 

Texto do colega Miguel Teixeira

(3-11-2019)

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