Início Vários A falta de professores e a agressão a um aluno por um...

A falta de professores e a agressão a um aluno por um «professor».

302
3

Em artigo anterior chamava a atenção para a falta de professores como um problema da educação, com impacto residual, mas que se pode tornar um problema estrutural a prazo. Dizia também que para quem navega (governa) à vista o mais provável é ignorar os problemas que não são prementes.

Por outro lado, foi notícia esta semana a agressão de um professor a um aluno por causa de um telemóvel. Uma agressão é sempre uma agressão que devemos repudiar e que envergonha a classe.

Mas depois soube-se que este «professor» foi contratação de escola e não tem profissionalização. É, portanto, um professor de recurso e não de carreira que encontrou trabalho no ensino sem estar preparado para este trabalho – nos Estados Unidos distingue-se o professor preparado do professor inexperiente chamando a este de professor substituto. Mais, isto aconteceu numa das áreas carenciadas do ensino em certas regiões: a informática. A conexão entre falta de professores e «professores» agressores está comprovada.

Confesso que não previ que o problema da falta de professores pudesse causar um problema destes, isto é, o recurso a profissionais pouco preparados pudesse levar a uma situação mais grave que é o uso da agressão por parte de um «professor». Mais uma vez me enganei, o que previa ser um problema residual, acabou por se transformar, por falta de preparação de uma pessoa ou temperamento, num problema grave e inadmissível, como o recurso à violência, que vai ser usado conta a classe.

Neste artigo refiro-me ao colega autor da agressão como professor com aspas e identifico esta situação como uma falha do sistema que está a levar a haver contratação de professores sem que estes estejam preparados para o serem. Mas esta não é a visão de todos, uns dirão que isto é um mau exemplo da profissão, mas esquecem-se que este não era um profissional, pois não tinha a parte da profissionalização. Quando comecei a dar aulas havia também o recurso a pessoas só com formação superior mas sem preparação para serem professores, mas em geral estes ficavam com o ensino noturno para adultos, que hoje já não existe. Isto é, não tinham logo que enfrentar adolescentes, alguns revoltados por terem de andar na escola, o que exige o desenvolvimento de técnicas e estratégias para os trazer para dentro da escola.

Concluindo, há um recuo do recrutamento residual para o ensino ao que se passava nos anos oitenta: o recrutamento de pessoas com formação técnica, mas sem a componente psicológica, sociológica e pedagógica, que todos os professores necessitam. A eliminação deste tipo de recrutamento a partir dos anos noventa traduziu o maior acesso dos jovens ao ensino superior e o desenvolvimento das escolas de educação no ensino superior. Recuar no tempo é um sinal de alarme.

Em contraponto, continuam os casos de agressões a professores e funcionários, mas como este tipo de notícias já caiu na rotina, estes casos passam para segundo plano. A violência deve ser condenada em qualquer circunstância e neste caso o que está por detrás da notícia também deve preocupar os decisores públicos: a perda de autoridade do professor. Como mostrei em artigo anterior a indisciplina mina o funcionamento das escolas e prejudica também os alunos empenhados e esta deriva também da perda de autoridade do professor.

Por último, constatar que o «professor» agressor foi logo preso – o que me parece correto – enquanto os agressores de professores e auxiliares educativos aguardam por queixa e por inquérito judicial – aqui é que acho que devia haver o mesmo tratamento por parte das autoridades.

COMPARTILHE

3 COMENTÁRIOS

  1. Quantas vezes professores profissionalizados, como é o meu caso, não têm também vontade de dar uma boa bofetada a um aluno?
    Sou profissionalizada, mas ninguém me ensinou a lidar com má educação e provocações.
    Não estou a desculpar o professor, apenas estou a imaginar a situação em que se encontrou…

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here