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Início do ano letivo: falta de notícias, a razão dos sindicatos em Caminha, côdeas, turmas mistas e roupa suja

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Fazer destaques das notícias sobre este início de ano letivo é difícil. Destaco, contudo, uma reportagem de sexta-feira sobre a situação da cooperativa que tinha contrato de associação em Vila Praia de Âncora, Caminha.

O Sexta às nove da RTP deu largo destaque aos trabalhadores que a cooperativa, que decidiu fechar, quer despedir, usando o subterfúgio abusivo da caducidade dos contratos e pagando-lhes, como diria a minha avó, uma côdea

CodeasOuça-se com atenção uma funcionária que, a meio da peça, pergunta, com candura e acertando no alvo: no tempo das vacas gordas entrou na cooperativa muito dinheiro e agora não há dinheiro para indemnizar?

Os sócios decidiram encerrar, a um par de dias do início do ano, ignorando os 900 mil euros que o Estado lhes pagaria para o 8º e 9º anos e secundário. A escola pública correspondeu aos alunos e já estão a ter aulas, no momento em que escrevo. Os professores, na sua maioria esmagadora, já estão colocados, mas os trabalhadores não docentes estão em situação bem pior.

Aquando do folclore das “camisolas amarelas” apareci em reportagens e publiquei textos a defender a escola pública na questão dos contratos inúteis e redundantes (e falando desse caso na terra onde trabalho).080701601300021

Fui a uma Assembleia Municipal de Caminha lembrar os fartos proventos passados da dita cooperativa. Deve ser bom ser empreendedor privado e defender energicamente as vantagens da iniciativa privada: uns “empreendem” e o Estado paga. Quando o Estado decide, legitimamente, pelo interesse público, os empreendedores amuam e fecham a porta, deixando na mão aqueles com cujos interesses encheram a boca: os alunos. E tentam furtar-se aos direitos dos trabalhadores.

Direitos dos trabalhadores: os sindicatos têm razão.

Nesses dias de polémica, houve ocasiões em que, ao estacionar o carro no parque da escola, ouvi ruídos, gritados ao longe por uns vultos (que fiz por não conseguir identificar), que berravam uns dizeres sobre a virtude da senhora minha Mãe. Se fosse viva ironizaria, como muitas vezes a vi fazer, a apelar a que me portasse bem, porque era a fama dela que pagava….

Como a coisa não passou de umas berrarias, compreendo a raiva e até relevo a falta de educação e respeito. Mas eu defendia então um interesse público legítimo, com uso da minha liberdade de expressão.

Em nome disso, tem de se dar hoje aqui destaque à luta dos trabalhadores. Numa rádio local (Rádio Alto Minho, em Viana do Castelo), o sindicato que os representa esteve ao ataque e muito bem lembrando os deveres de quem decidiu desertar e tentar fazer tábua rasa do Direito.

Parabéns ao (s) Ministro (s)….

Esta é uma das poucas notícias não rotineiras do início deste ano letivo. Até analistas profissionais estranham. No seu Barómetro de notícias na TVI 24, Miguel Crespo, do ISCTE, diz mesmo: “Não teve destaque: O arranque do ano letivo parece ter sido o mais calmo em muitos anos.” Mais à frente: “em 2016, apesar do arranque do ano escolar ter obtido 4,4% dos destaques da semana na comunicação social (…), só uma minoria era relativa a problemas e dificuldades estruturais. Olhando para as notícias, temos uma maioria de professores, alunos e pais satisfeitos com o regresso às aulas.”

Tiago Brandão pode assim habilitar-se a parabéns do resto do Governo. O PSD e o CDS tem é de dar os parabéns a Mário Nogueira, que dizem ser o ministro na sombra.

Pelos vistos, o ministro oculto governa bem o barco e evita tempestades.

Cadeados nos portões de escolas: as “turmas menos” no país da “turma mais”

CADEADO-E-CORRENTE.

Em Vieira do Minho, uma turma que junta alunos de 2 anos, veio perturbar esta paz santa com o retorno pontual de escolas fechadas a cadeado e com destaque, entre outros, na RTP, Rádio Renascença, JN e DN.

Turmas assim há muitas. No ano letivo passado existiram até 226, com os 4 anos. No final do ano, o Público destacava que essa solução não era tão má como o senso comum parece crer, e no DN mostravam-se mesmo os dados estatísticos gerais do país. Dizia o jornal que eram milhares as turmas e os alunos nessa situação. Neste tempo em que se fala tanto de sucesso e se anda a dividir turmas com base em “homogeneidades relativas” e outras balelas pseudoteorizadas isto é um problema prático e de grande impacto na opinião pública, a merecer mais cuidado.

Escola gratuita nos manuais? E as resmas para fotocópias?

E nestes resíduos noticiosos de início de ano, registe-se a análise do Expresso sobre a reutilização dos manuais. Ainda nesse tema dos livros, uma notícia algarvia sobre uma feira do livro escolar que deu origem a queixas de deputados por alegada venda ilegal de livros aos alunos de uma escola.

À atenção dos senhores deputados deixaria um assunto, mais premente talvez que o custo dos manuais.

Que dizem dos pagamentos e “doações” que algumas escolas públicas do 1º ciclo e jardins de infância ainda exigem aos pais para resmas de papel e até papel higiénico?

Papel higiénicoOu bem que a escola é gratuita e o Estado as dota com orçamento, ou bem que até se paga a higiene. Se forem ver, encontram ainda muitas em que se apela à doação de papel higiénico ou de resmas para fotocópias (que se anexam aos cadernos, em doses brutais de fichinhas e testinhos, empastadas em cola e que os pais pagam em acréscimo aos manuais).

Para o tema da gratuitidade, uma pesquisa aos sítios onde isso ainda se passa seria bem útil. Em 30 segundos, googlei e encontrei muitos exemplos das resmas… Fica um, tirado à sorte, e que teve o azar de ser o primeiro da listagem da minha pesquisa. Mas há mais…

Como os alunos não sabem tirar fotocópias, se cada aluno trouxer 1 resma de 500 folhas para que quererá uma professora com 20 ou 25 alunos, mais de 10000 folhas?

Resma de papelRealmente ainda há muita coisa a melhorar na escola pública. Vejam, por exemplo, este caso noticiado pela RTP de alunos que andam 3 horas em transportes para ir à escola.

Não sendo pessimista, mesmo vendo os problemas, há coisas a festejar. Por exemplo, a notícia das doenças infantis que o país erradicou, com investimento público e com uma gestão adequada de recursos: o sarampo e a rubéola estão erradicados em Portugal mas as vacinas continuam a ser imprescindíveis, como lembrava hoje o Observador (jornal que se destaca aqui, entre outros, porque muitas das lunáticas teorias antivacinas têm dedo de ultra-liberais anti-Estado a que, felizmente, ao contrário do que acontece noutros campos, este jornal não deu destaque).

Saúde Pública, vacinas e escolas, sintomas de todo um programa de progresso do país. Começou nos anos 70 e, com mais intensidade após o 25 de Abril, fez-nos reduzir a mortalidade infantil a níveis espantosos.

A máquina de lavar: vacina contra o absentismo escolar?

As escolas são vacinas contra a ignorância e às vezes precisam de algum engenho para funcionar.

Não resisto a partilhar esta notícia, que me chegou via Brasil, pelo jornal Folha de São Paulo. Numa escola dos EUA, a diretora descobriu que o absentismo começava pela dificuldade em ter roupa lavada para lá ir. Com algum engenho e máquinas de lavar doadas, resolveu o problema, lavando na escola a roupa dos alunos. O projeto foi alargado a muitas outras escolas americanas e efetivamente promoveu o sucesso sem fantasias.

33-1238019826RNNxQuando ouço as esdrúxulas ginásticas horárias e curriculares do “turma mais” (e outras coisas que tais) penso que a simplicidade pragmática produz melhores resultados. Ironicamente já vi fazer isto numa escola, em Portugal, com miúdos que moravam num bairro de barracas, mas não vi notícias disso no meio da verborreia portuguesa sobre promoção do sucesso.

E para terminar, lembremos o fulcro do que se faz todos os dias nas escolas: celebremos o sucesso nas olimpíadas ibero-americanas da Biologia de um grupo de alunos portugueses (de Ermesinde).

De certeza que não precisam de apoios sociais para lavar a roupa, mas quem sabe, se não serão eles os criadores das vacinas futuras?

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