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A Escola Que Subiu 1000 Lugares Nos Rankings E Viu O Seu Diretor Afastado

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Um artigo que descreve o que sucedeu à escola Curral das Freiras…


A vaidade do professor Joaquim Sousa

Há dias recebi por email um presente em forma de frase: “Os colunistas têm o dever cívico de mostrar aos leitores que existe um mundo melhor.” Pode não parecer, mas é isso que vou tentar fazer com o caso de Joaquim Sousa, um professor excepcional.

Esta é a história de uma escola pública que era a melhor do mundo, mas afinal é a pior — ou assim o dizem —, tão má que o director teve de ser afastado e a escola extinta.

Confuso?

Em 2009, o Governo Regional da Madeira abriu uma escola no Curral das Freiras, a freguesia mais pobre da ilha, num vale isolado de onde não se vê o mar. As crianças dos “sítios” do vale precisavam de uma escola ao pé de casa. Seria meio caminho para reduzir os chumbos e o abandono escolar. Joaquim Sousa, um professor de Geografia de Lisboa, foi nomeado director. Em 2010, quando a Escola Básica do Curral das Freiras ficou em 1207.º no ranking nacional das escolas, ninguém ficou espantado.

O espanto veio depois. Em 2015, o Curral ficou em terceiro lugar no exame nacional de Português do 9.º ano e no top 10 de Matemática, e foi a 12.ª melhor escola pública do país. O único aluno da Madeira que teve 100% no exame nacional de Matemática foi Dina Ascenção, aluna do Curral, e a melhor nota a Geografia da ilha foi de Albany Rodrigues, aluna do Curral.

Em cinco anos, a escola subiu 1000 posições.

Foram perguntar ao professor Joaquim Sousa o que tinha feito para conseguir isto. O que contou tornou o Curral uma inspiração nacional. Joaquim Sousa apareceu nos jornais, numa revista anual, num debate na Feira do Livro, na RTP. Quando quiseram saber se alguém, na Madeira, lhe dera os parabéns ou quisera conhecer os “truques” para uma mudança tão grande num lugar tão difícil e em tão pouco tempo, respondeu que “nem por isso”.

Agora, leio nos jornais que o governo regional abriu um processo disciplinar acusando-o de 388 irregularidades, que extinguiu a autonomia da escola porque era preciso poupar, que para isso fundiu o Curral com uma escola do Funchal, que tirou o director da escola e o colocou noutra. Mais confuso?

Comecei por tentar perceber as 388 irregularidades. Somos um Estado de direito e as regras são para cumprir. Mas depois de ler os 200 mil caracteres (dava um livro) da “nota de culpa” enviada pelo governo regional ao professor, o mínimo que se pode dizer é que houve requinte e diligência, para além de gosto em chatear.

Se está à espera de acusações de roubo, negligência em relação aos alunos ou aproveitamento do cargo para benefício próprio, ficará desiludido. Os 388 “crimes” de que acusam o professor são falhas no preenchimento de formulários de requisição de professores, falhas no sistema de controlo de assiduidade dos professores, falhas no envio dos horários, entregues por email e não em papel carimbado… Coisas que, se houvesse bom senso e vontade de manter o projecto, se resolviam com uma conversa.

Eu estou em Lisboa e não estou a perceber nada, avisam-me. “O professor Joaquim usou truques para ter bons resultados nos rankings.” Um dos “expedientes” foi enviar os maus alunos do Curral para os cursos de Educação e Formação (CEF). Como quem diz “assim também eu”.

O argumento tem quatro problemas. Projecta a utopia de que todos têm que ser doutores, repisa a ideia de que o ensino profissional é para os falhados e ignora que na União Europeia 75% destes alunos encontram trabalho pouco depois de obter o diploma (em Portugal são 76%). Mas sobretudo é malicioso ao sugerir que o Curral é uma excepção.

No ano em que a Escola Básica do Curral das Freiras foi notícia nacional por ter subido 1000 lugares no ranking, havia na escola 147 alunos elegíveis para os CEF. Desses, 16 foram para a formação profissional — 10,8%. Em Portugal, há 630 mil alunos elegíveis para o CEF e 30 mil estão lá — são 5%. Foi este o “truque” do Curral. Fazer o que todos fazem. Dirão: é o dobro da média nacional. É verdade, mas se pensarmos que o Curral não é pêra doce, os 16 alunos parecem poucos. Estamos a falar de uma freguesia onde 92% dos alunos recebem Acção Social Escolar, onde os níveis de abandono escolar já foram de 50% e onde não era raro encontrar alunos de 18 anos ainda no 9.º ano.

É caso para dizer que, se houve truques, eles foram aplicados nos 131 alunos que nesse ano continuaram no ensino regular e tornaram a escola famosa. No vale do Curral das Freiras até podiam ser todos Einsteins adormecidos, mas nada do que o professor Joaquim e a sua equipa fizeram ajudou?

Haja rigor: quando viu o Curral em 1207.º lugar, Joaquim Sousa percebeu que precisava de uma nova estratégia. Injectou ambição e mudanças: o conhecimento passou a contar mais na avaliação dos alunos (de 60% passou para 90%); os horários das aulas foram ajustados aos horários dos autocarros (para facilitar os transportes); os trabalhos de casa foram abolidos (para aumentar o tempo de desporto, artes e lazer); o toque também (para incutir responsabilidade); apostou-se nos apoios de recuperação e superação, na análise individual dos alunos, na definição do seu projecto de vida.

Ainda perplexa e a tentar perceber porque é que isto vale menos do que a forma como os horários foram entregues aos professores, deram-me uma segunda explicação. “O professor Joaquim é muito vaidoso.” Ah! Finalmente percebi. Não passará de uma guerra de egos. As crianças que paguem. Como os horários passaram a ser feitos em conjunto com a escola do Funchal, agora as aulas no Curral acabam mais tarde, ficaram outra vez desalinhados dos autocarros e alguns alunos já abandonaram os desportos que faziam. Mas que interessa isso, se era imperativo afastar um professor vaidoso?

Nos próximos anos, em vez de começar a ver os rankings pela escola onde fiz o 9.º ano — uma das piores do país, cheia de CEF e em plena capital —, vou ver em que posição ficou o Curral das Freiras. O professor está vaidoso? Mas quem não estaria? Venham mais vaidosos como ele.

Bárbara Reis, in Público 9-11-2018

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12 COMENTÁRIOS

  1. Mas o que interessa o ranking? O conhecimento a valer 90% na avaliação dos alunos? Parece-me muito mal… O que devia contar é o saber fazer; o aprender a aprender; e o saber holístico, medúnico e o lançamento de búzios!

    • Totalmente de acordo, Afonso. SABER FAZER devia ser a prioridade da escola. Mas não, os alunos estudam para os testes, para passar de ano. Quer dizer, o passar de ano é o grande objectivo. Pobre escola com tal objectivo. É a escola da tristeza, onde não há outras motivações, onde os professores estão atafulhados de trabalhos burocráticos. A escola está doente e a culpa até não é dos professores.

  2. Subscrevo a opinião da Bárbara. Mais. Mete nojo uma forma de pensar como a do Afonso. ( Sem odensa, ésó a minha opinião).

    Sei que estou e sou um deslocado há já muito tempo. Identifico-me com o Joaquim. É isto que quero para os nossos alunos, os nossos filhoks, as nossas crianças.
    TEMOS QUE LHE DAR MÉRITO.
    Teve iniciativa. Resolveu e superou um problema. O Estadonão gosta. O Ministério ou alguém não gosta e retira-o.
    COMO O PERCEBO.
    Mas não importa, tenho a certeza que aqueles futuros homens e mulheres nunca seirão esquecer deste homem. É o suficiente para, independentemente do que disserem ou fizerem, ele SE SENTIR FELIZ,, VAIDOSO E DE CABEÇA ERGUIDA.

  3. Quem está a bloquear o futuro dessas crianças e por consequência da aldeia deveria ser responsabilizado. Vá lá, a esta altura ainda se coloca este tipo de birrinhas da primária? Deveria averiguar-se quem foi o responsável por isto? Quem autorizou? Não pode passar impune!

  4. Parabéns ao Joaquim Souza e a todos os professores que com ele quebraram paradigmas da ignorância levando as crianças conhecimento.
    Parafraseando Fernando Savater, lembro aos amigos que o homem (espécie dominante no planeta), nasce duas vezes. O primeiro nascimento é do útero materno, o chamado nascimento biológico. O segundo é o nascimento da ignorância isso ocorre quando a criança, através de espelhos (bons exemplos), pai, mãe, professores e sociedade, aprende não só a caminhar, falar, escrever, fazer contas, mas, também, a desejar bom dia, boa tarde, boa noite, obrigado, desculpe-me me, sentar-se corretamente e etc. Ou seja, precisamos ensinar as nossas crianças tudo de bom que levamos a vida inteira para aprender que não inclui, burocracias, arrogância, inveja, maldades. E sim usar a sabedoria, para superar as dificuldades humanas.
    José Robson de Almeida.

  5. Excelente artigo! Triste notícia….
    #maisprofsjoaquimsousa
    Cansados de um ensino retrógrado, os pais e alunos exigem que a escola seja mais, os professores merecem respeito e queremos mais profs Joaquim Sousa, queremos mais ensino.. e menos burocracia! colem, copiem façam-se ouvir, unidos por um futuro melhor!!!

  6. Por um ensino melhor, crianças motivadas, professores respeitados, aqui está um exemplo perfeito mas o desejo de ser pequeno é muito grande, querem que os portugueses sejam pobres e ignorantes para não questionarem e viverem sempre dos subsídios, ficarem na mão do estado!!#maisprofsjoaquimsousa

  7. Alguns “tesourinhos deprimentes” (para quem esteve, alguns anos, naquela casa): No final do 1° ano letivo sua excelência Joaquim Batalha levou com um abaixo assinado de mais de 20 professores por tratar mal alguns professores (por mera divergência de opinião), coação e, diremos assim, agressão psicológica aos seus próprios colegas de Direção, algumas agressões a alunos (verdade seja dita, alguns deles não eram “fáceis”, e sem contar com uma vintena q vieram de Câmara de Lobos q outras escolas locais os “dispensaram”) e até chegou ao chefe da Secretaria da escola (q no ano seguinte pediu para mudar de local de trabalho). Depois veio uma inspeção à escola, Tribunal de Contas incluído e a coisa parece, repito, parece q ficou arquivado. Depois veio a ‘estória’ dos Rankings e (“Eureka”!) a escola passou, de uma ano para outro, a melhor a nível Nacional. Estratégia? Os melhores alunos no ensino regular, os “menos bons” em PCA e/ou CEFs (na altura apenas cursos de desporto e Informática). Alguns desses alunos (e q me apercebi na altura) não gostaram da separação da sua antiga turma e, inclusive, os seus Encarregados de Educação não foram avisados, como mandam as regras de autorização…
    Deixou de haver toque de entrada para maior responsabilidade? Porreiro. Os horários facilitaram com a chegada e partida dos autocarros e carrinha? Muito bem! Mas, e o resto!? Numa sociedade acente na Informação+autorização+Inclusão, e por aí a fora, acham correto a maneira como foi gerida toda a Comunidade Escolar? Estaos a falar de uma escola Pública, certo!? Que cada um tire as suas ilações.

  8. Na tal escola o que fez o professor Joaquim? ” Em vez de optar pelo facilitismo, a escola aumentou os níveis de exigência.

    A componente “saber” (conhecimento da matéria), que representava 60% ficando os restantes 40% para o “estar” (comportamento, assiduidade, participação), foi elevada para uma proporção de 90/10. “Estes alunos, pelo contexto social onde vivem, só têm uma oportunidade e precisamos de agarrá-la.”
    ”… Os tradicionais clubes deram lugar a apoios a Matemática, Português e outras disciplinas nucleares. Foram criadas actividades extracurriculares que promovem a cidadania e o respeito ambiental. Mas a biblioteca – numa terra onde 80% dos lares não têm livros – foi recheada e uma das salas da escola foi transformada em salão de jogos. Há matraquilhos e uma PlayStation, e a sala de informática está sempre pronta a usar. “Eles gostam da escola. Gostam de cá vir. Isso é uma vantagem que temos. Não há no Curral das Freiras muitas outras coisas para fazer””
    Muito retro! Chamem a doutora Ariana e o doutor Verdasca para concertar!

  9. Provavelmente ele feriu muita concorrência, particulares, velhos pedagogos etc.
    Vai acabar em uma excelente escola onde será reconhecido por alunos que pagam e não por aqueles que um dia tiveram sorte de por um breve espaço de tempo conhecer que existe possibilidades para qualquer um estudante possa vir a sonhar e realizar os seus sonhos, quando muito bem orientado…. Parabéns Professor Joaquim…

  10. …Isso é muito fácil de explicar com um único facto: nem todos os diretores são capacho do ministério, homens não-livres, atormentados pelo mal que fazem nos outros, trazendo aos professores infelicidade. Suponho que nem para Assistentes Ocupacionais serviriam, com o devido respeito pelo trabalho daqueles!…

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