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A Escola Precisa De Terminar Na Escola

A escola não termina na escola, e apesar de milhares de alunos permanecerem o dia inteiro na escola, pelos vistos não chega, é preciso mais e mais e mais, afetando inclusive os feriados, as férias e os fins de semana. E depois queixamo-nos que não existe tempo para a família... irónico, não é?

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Fala-se muito em reprovações, que estas incidem principalmente nas classes sociais mais desprovidas financeiramente, mas poucos falam no ponto chave que leva muitos alunos ao insucesso escolar e da necessidade que urge: a escola precisa de terminar na escola!

É frequente cá por casa ver o pai ou a mãe a ajudar a sua filha com as tarefas escolares. Sendo esta uma novata neste novo ciclo com muitos professores e diversas disciplinas, sentimos a necessidade de lhe dar um apoio nesta fase de transição, seja na organização do estudo, na elaboração de resumos, trabalhos e afins. Somos pais, ambos professores e naturalmente que temos uma facilidade que muitos pais não têm para orientar os seus filhos sobre assuntos escolares.

Se no 1º ciclo muitos pais conseguem dar uma “perninha” no apoio ao estudo, a partir do 2º ciclo as coisas começam a complicar-se, e quando começam as contas com letras, ui ui, é o fim da picada como dizem lá pelas terras do samba.

É aqui que começa a seleção dos bons e dos maus alunos, não é na escola, é em casa. E toda a gente sabe que é assim e pelos vistos toda a gente aceita que seja assim.

Discordo, profundamente!

A escola precisa de terminar na escola, não devem ser os pais que devem ter a responsabilidade de orientar os seus filhos nas tarefas escolares, pois estas são, ou deveriam ser, da responsabilidade dos professores e naturalmente dos alunos. Se não é a escola a ensinar como estudar, como realizar um trabalho, como fazer resumos, como estruturar o estudo, quem é que deve fazê-lo? Afinal, quem são e onde estão os especialistas do ensino? Em casa?

No ensino secundário chegámos ao ridículo da maioria dos alunos terem explicações fora do espaço escolar. Mas o que é isto? Como é possível que a escola e quem é responsável por ela, não constate que esta deixou de ser suficiente para obter o sucesso pretendido, que os alunos precisam de um apoio externo, pois o interno simplesmente não chega.

O ministro Tiago Brandão referiu ontem que menos chumbos carecem de mais professores, elementar caro Watson! Se o número de alunos por turma não diminui, é preciso aumentar o número de professores para apoios, codocências e afins. O objetivo é sempre o mesmo, um ensino mais individualizado, tal como acontece nas bem pagas explicações.

Só que existe uma área que continua a ser esquecida por parte da tutela e inclusive pelos próprios sindicatos que teimam em ignorar as questões pedagógicas, talvez por já não serem verdadeiros professores, perdoem-me a franqueza. Refiro-me à falta de tempo dos alunos e professores para compensar as dificuldades naturais de um processo de ensino que apesar da flexível, teima em perder certos vícios.

Reparem nestes horários:

Turma de 6ª Ano

A diferença é chocante! Como é possível no ensino básico, os alunos terem muitas vezes apenas 1 ou 2 tardes livres (preenchidas com clubes e desporto escolar), com trabalhos de casa regulares, trabalhos de grupo e preparação para testes? Como é possível querer-se um ensino de consolidação de aprendizagens e com tempo para a recuperação, se o tempo simplesmente não existe?

A escola não termina na escola, e apesar de milhares de alunos permanecerem o dia inteiro na escola, pelos vistos não chega, nunca chega, é preciso mais e mais e mais, afetando feriados, férias e fins de semana. E depois queixamo-nos que não existe tempo para a família… irónico, não é?

Os alunos não devem depender da sua família para o sucesso, não devem depender do seu estatuto social para o sucesso, como a escola não deve ser obrigada a educar alunos mal-educados, em virtude da negligência de muitos pais. É preciso dar tempo para cada um fazer o seu papel!

A culpa não é dos professores, estes fazem o possível e impossível pelos seus alunos. A culpa é de um modelo de ensino, que não permite a consolidação de conteúdos de forma eficaz e muito menos deixa tempo para a recuperação de alunos que vão perdendo o comboio da aprendizagem. E depois surgem as indisciplinas, as violências, os insucessos, os chumbos, os CEF’s, PIEF’s e afins!

Reduzam-se os currículos! Reduza-se a carga horária dos alunos! Deixem as tardes para os professores trabalharem em parceria, para os clubes, para o desporto, para o teatro, para os apoios e vão ver, que aos poucos, o insucesso irá diminuir, mas mais importante que isso, o nível de aprendizagem REAL irá subir de forma indiscutível.

E não, não é uma questão financeira, é apenas uma questão de organização e coragem política!

Alexandre Henriques

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9 COMENTÁRIOS

  1. Eu também concordo consigo, Alexandre.
    Aquele horário do 6ºA é a norma e é trabalho infantil do séc XXI.
    Intervalos insuficientes, assim como paragem para o almoço insuficiente.
    Nem sei como não lhes ocuparam a 4ª feira à tarde!
    Calhando, esqueceram-se…..

  2. Inteiramente de acordo! Tanta hora na escola, e depois o trabalho continua em casa. O que é lamentável é sabermos que se esse trabalho que se faz com os filhos não for feito, algumas aprendizagens não acontecem. Ninguém merece tanta hora a estudar na escola e fora dela.😰

  3. Muito bom apontamento. Efetivamente com o pouco tempo que têm disponível depois das aulas, é para continuar a estudar….onde está o tempo para o convívio com a família…é que nem ao fim de semana….Tenho uma filha no 7 ano e um rapaz na Universidade, e o tempo de estudo em casa dos dois é semelhante.Não temos fins de semana em família, pois estão os dois a estudar… Já fui mãe muito tarde, e estou a perder a possibilidade de estar com os meus filhos…é triste….

  4. Será que estes horários dos alunos serão também para resolver o problema de onde deixar os filhos nas tardes livres??!!…

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