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A Desvalorização Permanente Do Trabalho E Negação Do Direito Greve

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Aos professores foi apagado o tempo de serviço para evitar progressões na carreira. Já tinham sido alterados diplomas para minimizar os efeitos da greve na classe docente. Foi montada uma barragem de propaganda mediática em todos os meios de comunicação, procurando fazer crer que os professores eram uns privilegiados. Recordo num programa televisivo um tal de Pedro Lopes dizer que não viu nenhum professor perder o seu emprego ou emigrar. Eu sei que ele, tal como outros, terá alguma dificuldade em ver (o que quer que seja), nomeadamente quando numa hora comenta os professores e noutra comenta o futebol, fazendo alterne permanente entre programas. Um autêntico processo alternadeiro. Se os professores eram 185 mil em 2007 e passaram a ser 146 mil em 2018 para onde terão ido 40 mil professores? Obviamente que perderam o seu emprego e/ou emigraram! Nem houve necessidade de “despedir” pois, apesar de alguns terem mais de vinte anos de serviço, ainda não estão no quadro, basta não tornar a contratar.

https://www.cmjornal.pt/sociedade/detalhe/professores-com-60-anos-so-agora-se-tornaram-efetivos

Em novembro do ano passado foram os estivadores, que vítimas de uma precaridade brutal, viram ser retomados os “dias de jorna” tão do agrado dos patrões de antes do Vinte e Cinco de Abril, sempre protegidos pelo poder salazarista, que acumulavam riquezas enquanto o povo vivia na miséria e imigrava às centenas de milhar. O mesmo acontece hoje com um governo de esquerda. Quando os estivadores entraram em greve para melhorar as suas condições de trabalho foram substituídos, numa negação vergonhosa do direito à greve.

https://sicnoticias.pt/economia/2018-11-24-Estivadores-no-20-dia-de-greve-voltaram-hoje-a-ser-substituidos-por-contratados

Também os enfermeiros, obrigados a trabalhar por valores verdadeiramente vergonhosos: 3,96 euros por hora emigram aos milhares:

https://expresso.pt/actualidade/enfermagem-ou-limpeza-o-preco-a-hora-e-quase-o-mesmo=f736948

Sem distinção remuneratória para Enfermeiros Especialistas e com um rácio entre o número de enfermeiros por habitantes dos mais miseráveis da Europa.

https://www.dn.pt/portugal/interior/racio-baixo-de-enfermeirohabitante-coloca-portugal-nos-ultimos-da-ue-8959539.html

Ao iniciar, como último recurso, uma greve esta é logo apelidada de selvagem e ilegal.

https://www.publico.pt/2019/02/01/politica/noticia/costa-greve-enfermeiros-selvagem-absolutamente-ilegal-1860335

E os próprios enfermeiros são associados a meros criminosos.

https://www.dn.pt/poder/interior/ministra-da-saude-pede-desculpa-aos-enfermeiros–10333304.html

Sem convencer quanto às suas razões o governo opta pela posição da força, a requisição civil, digna de regimes ditatoriais.

Chega a greve dos camionistas de matérias perigosas em que a agressividade e prepotência dos patrões é absolutamente evidente. Os patrões contratam como porta-voz um rapaz do aparelho partidário do PS. A técnica é a mesma já usada anteriormente, os camionistas são uns privilegiados ganham muito e ainda por cima são violentos, como insinuou o tal de André Almeida.

https://expresso.pt/sociedade/2019-08-10-Andre-Almeida-da-Antram.–E-muito-provavel-haver-violencia

Apesar de não ter havido noticia de qualquer violência.

Aparece ainda um suposto mediador, ministro do governo, que se confunde de imediato com os patrões, pois o porta-voz/advogado dos patrões é ele próprio nomeado pelo governo para presidente de dois organismos do estado. São todos amigos…

O personagem André Almeida depois de insistir que a Antram não negoceia com uma espada em cima da cabeça (segundo ele uma greve é uma espada apontada à cabeça dos patrões…) que já de si é tentativa de impor condições vem, depois, afirmar na SIC Noticias, sobre o Documento de Mediação entre a Antram e o Sindicato Nacional de Motoristas De Matérias Perigosas (SNMMP) que a entidade que representa aceitaria incluir na mediação aquilo que o sindicato quisesse, não tinha apresentado quaisquer pré-condições.

Mas o Jornalista pergunta: …explique-me por favor porque é que no n.º 2 deste documento que foi apresentado ao sindicato diz “A revisão do contrato coletivo de trabalho deverá ter por base pressupostos negociais referidos no protocolo negocial de 17 de maio de 2019, subscrito entre a Antram e o SNMMP podendo envolver outros aspetos que não entrem em contradição com o referido protocolo”, isto não é uma pré-condição?

Responde André Almeida: “Repare que isto não é uma pré-condição e eu vou-lhe explicar porquê e essa pré-condição foi aceite pelo Sindicato”.

Mau! Então não é uma pré-condição mas é uma pré-condição aceite pelo sindicato?

Tudo isto é revelador de uma profunda má-fé negocial

Mas o governo decidiu decretar mais uma requisição civil.

Até para os trabalhadores da RyanAir em greve o governo impôs uma requisição civil…

Num País tão desigual como Portugal não há greve de trabalhadores com a qual eu não esteja solidário. Independentemente do facto de poder ser prejudicado nada abala a minha convicção.

A requisição civil é para mim algo de muito grave. Quando finalizei o Serviço Militar e passei à Reserva de Disponibilidade e Licenciamento, foram-me dadas instruções para manter as fardas e as botas, pois em caso de necessidade poderia voltar a ser chamado. Não houve entretanto conflitos armados envolvendo a Nação, não houve cataclismos e não tornei a ser chamado. Da mesma forma também não encontro justificação para a vulgarização destas requisições civis que apenas visam a futilidade de manter o poder a qualquer preço. O que não é digno de um estado de direito, mas da prepotência de um estado ditatorial.

Também não é por acaso que repetidamente membros do governo e não só, têm afirmado incessantemente que a greve é um direito, que respeitam a greve, etc. Escondem o verdadeiro objetivo, que é para mim claro, acabar com as greves em Portugal. Serviços mínimos de 50%, 75%, e 100% não se coadunam com uma greve.

O Direito à Greve acabou em Portugal!

Com a gravidade acrescida de tudo isto ter ocorrido com o beneplácito da “esquerda”.

Em termos pessoais tenho agora um problema: desde sempre votei na esquerda… em quem vou votar agora?

Já que ainda vou mantendo algum sentido de humor, estou seriamente a pensar votar no José Castelo Branco.

Imagino um sketch, tipo Monty Python, em que o José Castelo Branco se senta ao colo do Carlos César e lhe dá um repenicado beijo, depois quando admoestado pelo presidente da assembleia Ferro Rodrigues lhe responde: “Noblesse Oblige Darling”.

Deixei de acreditar! Os nossos políticos merecem o José Castelo Branco sentado ao seu lado. O autodenominado “Bicha Justiceira”.

É dele o meu voto!

Como diria Tiririca “Pior do que está – não fica”.

 

Sr. Prof. Zé

3 COMENTÁRIOS

  1. Muito Bom!!!
    Deixe-me, apenas acrescentar, que foram utilizados recursos públicos para garantir lucros privados! – VERGONHOSO!
    Já me manifestei bastante sobre este assunto e não vou repetir argumentos que apenas estão em consonância com os seus.

    Mas preocupa-me, muito, a INDIFERENÇA social (bem manobrada mas nada nova para quem quiser ver) com que tudo isto se tem passado.
    Aqui, ao que parece, não há razões para manifestações, abaixo-assinados, contestação, saídas para a rua, … – tudo sob controle, desde que CADA “umbiguinho” esteja protegido!

    Preocupa-me que entre tantos professores, muitos pais,… – silêncio.

    Preocupa-me igualmente, que tantos portugueses com filhos (muitas vezes com habilitações superiores) não observem como estes estão cada vez mais precarizados, explorados e quantos até pagam para fazer estágio em empresas que nada lhes garantem… Preocupa-me que sejam jovens cada vez mais desprotegidos (com o fim da contratação colectiva), com baixos salários, sem direitos e sem regalias…

    Agora… os próprios PAIS não se INDIGNAREM COM O FACTO DE até o direito à greve (para lutarem por condições dignas de trabalho, de remuneração e de realização familiar) lhes RETIRAREM: INDIGNA-ME, ENOJA-ME E REVOLTA-ME PROFUNDAMENTE!
    Os Pais de hoje beneficiaram e muito com as greves e o sofrimento de outros no passado mas… a memória é curta e o conhecimento (se o têm) é para eliminar!

  2. A mim indigna-me é a “estupidez natural” e a apatia dos jovens que começam a trabalhar entre os 25 anos e os 35.

    Tem a almofada financeira dos pais, avós e tios e nada reclamam.
    Aliás até são uns neoliberaisZECOS.

    • Não deixa de ter alguma razão mas… É bom não esquecer que cresceram com o exemplo dos pais e da sociedade… Ė bom não esquecer que nasceram e cresceram numa sociedade cada vez mais vazia de ética e valores, cada vez mais egoísta e superficial, cada vez mais palavrosa, menos critica e menos interventiva… É bom não esquecer que nasceram e cresceram numa época de desvalorização crescente do trabalho e do esforço, da expansão do “chico-espertismo” com a conivência das estruturas sociais e familiares…

      Daí a treta das aulas de cidadania e dos projectinhos das causas… Não são as palavras, não são os trabalhinhos pomposos e cheios de imagens, gráficos e frases bombásticas… O EXEMPLO e a coerência dos princípios que adoptamos na nossa vida pessoal, profissional e social ensina muito mais do que as tretas dos discursos verborreicos!

      Quanto aos “neoliberaisZECOS” …: ou são mesmo estúpidos e/ou têm a vidinha garantida!

      A mim, toda a falta de crítica, toda a falta de acção, toda a falta de actuação, todo o pacifismo, indiferença e silêncios me indignam perante a perda de direitos civis, laborais, ambientais e de qualidade de vida perante o crescimento e expansão dos modernos feudalismos!

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