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A Criatividade

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A criatividade é olhada como o parente pobre da educação, aquele que não queremos convidar para os convívios em família porque é “estranho”.

Mas o que é a criatividade senão o início de todos os processos que nos trouxeram evolução,conforto, soluções para os nossos problemas? Porque é que querem tirar a criatividade das escolas, se nós dependemos das futuras gerações para que sejam suficientemente criativas para resolver os problemas complexos que se avizinham, muitos criados por nós? Uma ideia criativa não é sempre boa, muitas vezes não tem valor na sua forma inicial, muitas vezes é preciso tempo para a testar, refinar, ou mesmo rejeitar a favor de outras que entretanto surgem. Mas é preciso tempo e espaço para a discussão, reflexão, avaliação, testar caminhos novos que não nos dão garantias de sucesso.

Não estou a falar só das aulas de artes. Eu defendo que a criatividade deve estar presente em todas as disciplinas da escola. A matemática, por exemplo, é um processo constante de tentativa e erro. Surge uma ideia, a comunidade educativa trabalha nessa ideia durante um tempo, discute, debatem-se estratégias, argumenta-se, fazem-se experiências. Chegamos à conclusão de que é uma ideia errada. Partimos para a próxima. Não se perdeu tempo; abriram-se as mentes a novas ideias, a novas propostas de solução. Estas discussões abriram caminhos, modificaram a estrutura dos cérebros dos alunos, aumentaram as conexões neuronais e este ganho não mais será perdido.

É fundamental dar espaço para avaliar as ideias que funcionam e as que não funcionam, dar tempo ao raciocínio crítico que está presente neste processo criativo, ou permitir o silêncio para as reflexões individuais.

Ninguém poderá acreditar que um cientista chega às ideias inovadoras de um dia para o outro, porque viu um mal-me-quer que o inspirou. Não há nada de místico na criatividade. Há trabalho, há discussão e há, com toda a certeza, muitas tentativas frustradas. Este será o ponto mais difícil de aceitar: o valor do erro. Só quem erra muito pode acertar às vezes. Mas enquanto tentaram chegar ao objetivo final, fizeram o caminho da evolução, desenvolveram competências, adquiriram conhecimentos, fizeram reflexões importantíssimas.

Voltemos à sala de aula. Deixamos os alunos errar? Queremos que eles desenvolvam competências ou estamos todos a correr para cumprir metas? O ensino privado, em particular, tem andado muito distraído com a obsessão pelas notas, que muitas vezes rouba espaço para estes momentos de crescimento, compromete o verdadeiro propósito da escola, que é ensinar a pensar. A criatividade está associada à liberdade de expressão, será por isso que é tão difícil de ganhar espaço na sala de aula? Ou será que os adultos acham que não há tempo para “brincadeiras” porque têm “trabalho sério” para fazer?

Às vezes ouço os adultos dizerem que esta geração é muito imediatista, que quer tudo para agora, mas não sei se os adultos que os rodeiam são muito diferentes.

Sofia Homem Cristo

Diretora do Colégio da Beloura

colégio da beloura

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