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O que se passa de errado com a aluna exemplar?

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Estão a ver a menina que quer estar à frente?
A nossa aluna-modelo?Resultado de imagem para good student, free clipart

Ela tem um comportamento exemplar.

Ela faz os trabalhos de casa todos e a tempo e horas.

Ela tem um caderno limpinho, organizado e decorado com florzinhas nos cantos.

A caligrafia dela é irrepreensível, a roçar o barroco.
Ela é sensatamente participativa, sabe as respostas, está atenta e levanta o braço para responder.
Ela fala num tom de voz moderado e com educação à tona: por-favores e com-licenças e obrigadas abundantes.
Ela traz sempre as sabrinas sem lama, os tules compostos e as camisas de punhos rendados imaculadamente brancos. Ela usa as tranças bem delineadas, como a mãe quer.
Ela faz o que lhe pedimos. Ela coopera.

Porque não levantam problemas, temos tendência para assumir que está tudo bem com estas crianças. (o que também não equivale a dizer que forçosamente não esteja)

Simplesmente não são o alvo da nossa preocupação em particular. Não… precisam.

O nosso foco é, geralmente mais naqueles que estão a tentar enfiar um soco ao colega de carteira ou a esticar o pé à Joaninha que foi chamada ao quadro… Lá está, o crime, compensa!

A gente assume que a “boa aluna” está bem, que não se passa nada de errado com ela; porque ela faz tudo aquilo que é esperado que faça.
E esse pode ser o problema. Estamos… distraídos.

Pode passar-nos ao lado um profundo sofrimento interior. Pode acontecer que toda esta postura de colaboração permanente seja uma necessidade e não uma escolha. Será que ela não tem alternativa? Será que o ambiente familiar não lhe permite menos do que “ser perfeita”? Será que ela não tem outra opção se não ser submissa e madura?

 Não quero significar que haja sempre algo de errado quando, Deus os abençoe, encontramos este tipo de alunos. Estou apenas a reflectir sobre a necessidade de estarmos alerta para este tipo de obediência cega e de modos perfeitos-muito-à-frente-da-sua-faixa-etária. A meu ver, falta ali infância.

Há que estar atento. Porque, se no imediato, esta atitude nos é confortável como educadores, a repressão e auto-controlo absoluto que ela implica pode vir a ter repercussões na criança, mais cedo ou mais tarde. Onde vai encontrar o seu espaço de transgressão, esta menina? Onde vai descomprimir? Sim, porque todos temos frustrações e raivas e desconfortos. As crianças não são diferentes.

Penso que, como educadores, devemos estar atentos aos sinais.

A situação que me despoletou esta reflexão passou-se numa actividade fora da sala de aula. Ao contrário dos outros meninos, que em ambiente exterior ficam sempre mais eufóricos, esta “boa aluna” continuava composta, erecta, imóvel, monossilábica, compenetrada… alheada, até.

Disseram-me que sempre assim se comporta no recreio. Quase não fala com os colegas. Raramente brinca. Passa o intervalo a deambular por ali, sem nunca realmente se interessar por nenhum jogo em particular, sem … saltar, pular, gritar…sem brincar?!!! sem ser… criança!!!

Pareceu-me extremamente patológico e alarmante. Ao reflectir, senti um pouco de culpa por não ter percepcionado nada disso na sala de aula (duas vezes por semana, duas dúzias de alunos, de anos diferentes… enfim, culpa relativa).

Enfim.

No geral, desejar, como tantas vezes, que o sistema nos permitisse um ensino mais individualizado, com turmas menores em que pudéssemos ser mais próximos das crianças, uma vez que a escola, hoje em dia cumpre tantas funções para além da instrução.

Em particular, cuidar de estar mais alerta para os  problemas daqueles que aparentemente os não apresentam.

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2 COMENTÁRIOS

  1. É que alguns desses alunos têm a família a fazer o trabalho que é da família . Os que acham que a escola tem de fazer tudo. ….Não dão trabalho mas têm de ser mimados,incentivados, gabados e os prof esquecem se. Um dia perguntei ao meu neto se a educadora lhe dava mimo….Só dá aos que estão sempre a chorar ou não colaboram???????????

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