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É a 2ª vez que desligo o telefone a um Encarregado de Educação.

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Não é bonito, nem recomendo a ninguém, mas não sou saco de pancada para a frustração alheia. Alguns pais julgam que os professores são servos dos seus filhos e que lhes podem dizer tudo como se estivessem a falar com estes. Quando a conversa começa a roçar a ordinarice e os decibéis sobem acima do padrão, opto pela frase “peço desculpa mas quando a senhora estiver em condições para falar comigo procure-me s.f.f., com licença”.

Os miúdos mentem e mentem com os dentes todos que têm na boca, alguns pais ainda vivem no mundo imaginário que os seus filhos só dizem gugu dada, que são fieis à verdade, lacaios das suas vontades.

Acordem!!!

A inocência termina muito antes de vocês se aperceberem. Os miúdos têm acesso a tudo e a uma velocidade incrível, muitos pais nem imaginam as coisas que eles sabem e que fazem às escondidas. Se as aulas e corredores fossem filmados e com acesso a áudio, muitos pais corariam de vergonha por aquele desfilar de má educação.

Sobre os telefonemas propriamente ditos, a primeira vez que desliguei o telefone a um encarregado de educação, foi quando liguei a uma mãe e esta respondeu-me do alto do seu incómodo…

“Professor, tem algum jeito estar a ligar-me para o meu local de trabalho?”

a minha resposta foi…

“Certamente que não quer que lhe ligue durante a noite e este é o número que forneceu à escola, além disso, o seu filho deve ser assunto do seu interesse, não acha?…”

A conversa azedou e o telefonema que deveria ter demorado dois minutos, demorou dez, o tempo que a minha paciência aguentou.

A segunda vez que tive o privilégio de levar com a pureza paternal, foi há bem pouco tempo. Uma mãe resolveu acreditar no que o filho lhe tinha dito, acusando-me de algo que não tinha feito. Mal ouvi o tom da primeira pergunta percebi o que aí vinha…:

Mãe: “É o professor Alexandre?”

Eu: “Sim, diga…”

Mãe: “Professor, o que é que aconteceu hoje na sua aula?”

Eu: “Na minha aula??? …. Peço desculpa mas não estou a entender…”

Mãe: “O MEU FILHO NÃO É MENTIROSO!!! OUVIU BEM! O MEU FILHO PASSA A VIDA A SER INSULTADO E O PROFESSOR DIZ QUE ESTÁ TUDO BEM!!!

(ambos os contactos ocorreram pelo telefone da escola)

Entre a estupefação e a dificuldade em verbalizar, ainda tentei ajudar a senhora a perceber que nada do que dizia era verdade, tentei… mas com o desbobinar de uma série de acontecimentos que só aconteceram na cabeça do rapaz, que resolveu utilizar a minha aula e a minha pessoa para provar uma suposta perseguição que lhe estava a ser feita, pouco mais havia a fazer que não ser desligar o telefone.

A minha mãe costuma dizer que o mais inteligente numa discussão é o que se cala em primeiro lugar. Tem toda a razão… Há momentos em que a falta de educação é tão evidente, que não adianta argumentar ou mostrar a realidade. Quando somos vistos por certos pais como o inimigo, nada nem ninguém pode demover certas “raridades” de proferirem os mais “carinhosos” adjetivos. E sorte a nossa quando não somos mimados com umas estaladas à la carte, ou entradas na escola ao estilo “Rambo”…

Os professores trabalham para ganhar dinheiro, sim, mas os seus níveis de dedicação não são proporcionais aos seus vencimentos. A grande maioria dos professores preocupa-se efetivamente com os seus alunos e são poucos os que ficam satisfeitos com o seu insucesso.

A instituição professor perdeu há muito o respeito de outrora, a forma como estes são tratados por certos pais, realça o muito que se perdeu e que infelizmente está a ser assimilado pelos seus filhos.

Reconquistar o respeito e a autoridade do professor demorará décadas, isto se alguma vez for recuperado. A escola e o professor são muitas vezes ultrapassados pela necessidade do momento e pelo conhecimento que vive em pequenos aparelhos, a sua existência pode começar a ser posta em causa, mas nunca nada nem ninguém poderá substituir um professor.

Falta uma cultura de escola, uma cultura de exigência, uma cultura de valorização do saber, uma cultura de disciplina e falta acima de tudo, uma cultura de responsabilização, quer do aluno quer dos próprios encarregados de educação.

Nota: Este texto não é um ataque aos encarregados de educação no geral, é uma crítica a uma tipologia de pais que “parasitam” as escolas. Já lidei com centenas de pais e muitos são pessoas equilibradas, verdadeiros aliados dos professores. Saibamos distinguir as coisas, mas assumir sem tabus as realidades das nossas escolas.

Alexandre Henriques

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