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25 de abril – sempre

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Para mim é uma invariável. Tão invariável quanto o destino, o escrever sobre abril. Não consigo deixar passar em claro a data, o acontecimento e tudo o que ele representa.

Costumo dizer que sou fruto de abril. Nasci em ditadura. Mas concederam-me a oportunidade de crescer e me formar em democracia e liberdade. Nasci condicionado pelas origens familiares e sociais. O meu crescimento e a minha formação estariam limitados, circunscrito que estava ao interior de um país pobre, dependente e subserviente que aceitava a imposição como se de algo normal se tratasse e a uma família de escassos recursos – era o nosso fado. Estaria condicionado a seguir as pisadas da maioria, frequentar a escola até por volta dos 15/16 anos e, depois, procurar um trabalho, ir para a tropa, certamente para a guerra. Tinha-se, sempre, uma alternativa, fugir a esse desiderato pela emigração ou, como outros da família, dar o salto.

Foi um tempo em que

O país (…) tinha produzido uma pequena e idiossincrática utopia de contenção e moderação, de costumes cinzentos e brandos, de honradez na pobreza em cenários pacatos de ruralidade numa tensão representativa contraditória, para não dizer esquizóide. Por um lado, os portugueses eram passivamente transparentes, invisíveis nas paisagens líricas de aldeias de xisto, granito, ou cal, satisfeitos na sua contida pobreza, comedidos, sem ímpetos de melhoramento e auto-superação, murmurando fados, tangendo guitarras em tom menor, não se envolvendo em rixas, (…). Por outro lado, eram os grandes heróis do mundo, os pioneiros, os mais fortes, os mais humanistas, os mais compreensivos, os mais interactivos, em suma, os primeiros e os melhores. (Bastos, C. 2017. Utopias, portais e antropologias urbanas: Gilberto Velho em Lisboa. In. Análise Social, 222, LII (1.º), pp. 162-174.).  

Esta contradição “esquizóide”, a autora carateriza-a como uma “dissonância cognitiva”, algo que se contradiz entre o pensamento e a ação ou, melhor dito, entre o que se diz, fala e propala e a realidade vivida, o quotidiano que nos faz emergir da realidade.

Considero que esta “dissonância cognitiva” está ainda muito presente na nossa sociedade. Ora ufamos com os feitos de portugueses pelo mundo (Mourinho, Ronaldo, Guterres, como alguns dos exemplos) ora soçobrarmos ao desiderato do quotidiano sem réstia de resiliência, persistência ou tenacidade que nos mova de uma inércia tão desconcertante quanto desconfortante.

A escola teve um papel fundamental na cristalização de ideias e modelos, na naturalização de situações como no fomento desta dissonância cognitiva. O trabalho escolar ora é visto na fronteira do lúdico, ora como desiderato de exigência e rigor. Ora é considerado como elemento de mobilidade social, ora castigo pessoal por via da falta de empenho e/ou de vontade. Ora nos carregam com objetivos, metas, competências ou indicadores, típicos de lógicas neoliberais, ora apelam à consciência de um perfil humanista (p. 6). Ora nos orgulhamos dos resultados alcançados, do percurso feito, ora nos sentimos constrangidos pela persistência de um analfabetismo que, apesar de estarmos no século XXI, ultrapassava, em 2011, os 5%. Ora a escola é vista como local de exercício de autonomias, com profissionais reflexivos e empreendedores, ora é vista como extensão de uma administração pública onde funcionários zelosos cumprem obrigações. Ora a escola é vista como espaço de participação e de construção das liberdades e da cidadania, ora como é considerada como lócus de modelos funcionais de obediência. Ora a escola é vista à luz de um plano tecnológico de fazer inveja aos filandeses, ora ficamos constrangidos por faltas tão básicas quanto as de papel higiénico ou de fotocópias.

Há ainda um largo, demasiadamente largo, espaço de antanho que é preciso arrumar. Isto a despeito de posicionamento pessoais, mas que persistem, lá isso persistem. Mesmo na escola com lógicas de meritocracia mal disfarçadas de rigor e exigência. Mesmo na profissão docente, arreigados que estamos a um currículo prescrito e não construído, na consideração do aluno enquanto objeto e não como sujeito., São lógicas de há muito e que persistem em nós.

Muito se fez, muito há a fazer. Contudo, considero que aquilo que de mais importante abril nos deixou foi/é que o destino é o que dele fazemos e não aquilo que uns mandam que seja.

Viva abril

Manuel Dinis P. Cabeça

24 de abril

Coisas da Aulas

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