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Ética docente

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Era uma vez uma professora efectiva que defendeu, perante o seu director, um colega contratado. No ano seguinte, recebeu o pior horário da escola, com furos diversos e um apoio de 45 minutos numa manhã de outra forma sem componente lectiva. Não se importou. Continuou a achar que tinha feito a coisa certa.

Era uma vez um agrupamento em que os professores faziam participações uns dos outros, em impressos próprios, sob a égide de assim contribuírem para o que naquele contexto era denominado de supervisão pedagógica. (super visão, ver tudo, vigiar pidescamente e bufar)

O que estes dois casos têm em comum é a questão da ética profissional. No primeiro caso, a presença dela (independentemente de retaliações futuras); no segundo caso, a sua ausência.

Ninguém é absolutamente impoluto, moral  e eticamente irrepreensível. Todos somos seres humanos, com as nossas fragilidades e telhados de vidro; portanto, a tolerância, justiça  e integridade devem pautar a nossa conduta diária. Particularmente, porque somos docentes.

Infelizmente,colegas, nem sempre é assim. Lamentavelmente, há muitos docentes que, ao invés de colaborarem com os colegas, os acusam, denunciam, criticam, apontam o dedo.

Na escola e fora dela, o que me parece particularmente grave. Num período em que a nossa imagem social já está tão debilitada, numa sociedade em que o nosso desempenho é sujeito a constante escrutínio devastador, parece-me particularmente mau que nós próprios contribuamos para o denegrir da nossa profissão. Noutras classes profissionais, mais fortes, isso evita-se a todo o custo. Os profissionais unem-se, protegem-se, defendem-se, chegam a camuflar eventuais arestas dos olhos auspiciosos e vorazes da opinião pública.

Nós…não! Falamos mal uns dos outros, questionamos, acusamos colegas.

Era uma vez a professora Ípsilon amiga da professora Xis. Estiveram juntas na matrícula do filho da Ípsilon, com a Xis no cargo de directora de turma. Beijaram-se e despediram-se, com votos de boas férias. Na semana seguinte, a professora Xis foi alvo de uma carta acusatória de más práticas, encaminhada ao senhor director. Era uma turma de vinte e seis alunos. A carta estava assinada por quatro encarregados de educação. Adivinhem que nome estava entre eles. Ípsilon, claro.

Dir-me-ão assim: então deixa-se passar impune uma conduta menos correta?

Não, mas há formas de o fazer. Mais íntegras. Mais solidárias. Mais construtivas. Mais enforçadoras da nossa imagem.

Ípsilon poderia ter falado individualmente com Xis (afinal eram amigas, tinham estado juntas). Poderiam ter resolvido isso entre colegas. Poderia ter-lhe dado uma sugestão. Poderia ter oferecido ajuda.

Independentemente do fundamento da queixa. Ou quase.

Salvo situações extremas, desvios atípicos que, como em todas as profissões, surgem no grupo dos que ensinam – custa-me a perceber a necessidade de vir a público lavar a nossa roupa suja, nesta época em que todos nós já navegamos em lençóis suficientemente conspurcados. A meu ver, perdemos todos.

Os profissionais da educação têm como dever “justificar a confiança pública e aumentar o respeito pela profissão, oferecendo a todos uma educação de qualidade”;

Relativamente aos compromissos para com os colegas, diz o bom senso, a boa consciência e a Declaração Ética para a docência enunciada pela Fenprof (ver fonte abaixo), os profissionais de educação devem- e cito:

a) promover um relacionamento amigável com todos os colegas, respeitando a situação profissional e as suas opiniões, aconselhando e apoiando sobretudo os que se encontram em início de carreira ou em formação;

b) manter a confidencialidade sobre informações relacionadas com os colegas, obtidas no decurso da prática profissional, a menos que sua divulgação seja requerida por lei ou por dever profissional;

c) auxiliar os colegas na sua avaliação, após negociação e acordo entre os sindicatos e os empregadores;

d) defender e promover os interesses e o bem-estar dos colegas(…).

Fim de citação.

Enfim, ética profissional.

Era uma vez um Conselho de docentes. Anfiteatro cheio para balanço final das actividades do ano lectivo. Um dos pontos da ordem de trabalhos era avaliação das AEC. Começa o desfiar de lamúrias quanto ao colega de Música que “não tem mão neles”, o de Educação Física com quem se “esticam”, a de EV que deixa a sala suja e desarrumada e por aí vai. Um juízo público de pessoas ausentes, que nem haviam sido convocadas para a tal reunião…

Se calhar, temos de reflectir um pouco mais sobre isto de fazer a coisa certa. Ou, se calhar, estou a ser utópica, numa profissão em que não há código deontológico.

 

Declaração de ética profissional

 

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4 COMENTÁRIOS

  1. A única solução é vencer o mal com o bem e construir um mundo de Paz onde todos se possam realizar plenamente e serem felizes, colaborando e contribuindo para o sucesso escolar de alunos e o enriquecimento em termos de sabedoria de todos.

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