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1º Estudo Sobre Indisciplina em Portugal com Dados das Escolas

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Observatório ComRegras

Quando criei o ComRegras tinha na minha cabeça fazer algo semelhante ao que faço na minha escola, ou seja, conhecer a realidade disciplinar, registando e analisando tudo o que acontece.

Julgo que só assim é possível compreender o fenómeno da indisciplina, o que permitirá depois implementar as medidas adequadas.

Não deixa de ser estranho que em Portugal não se aplique este princípio e julgue-se que através de simples inquéritos se possa conhecer a realidade disciplinar da escola pública.

Os céticos poderão dizer que não é através das participações disciplinares e afins que se conhece a dimensão e tipologia da indisciplina. Eu não vejo outra forma, era como concluir que existe um aumento ou diminuição de sinistralidade sem conhecer o número de acidentes, ou afirmar que o crime está a aumentar sem saber o número de queixas efetuadas. Por que razão é que na escola tem de ser diferente?

Este estudo é apenas uma amostragem do que deveria ser feito mas em outra escala, bem como um ponto de partida para uma série de conclusões de que falarei mais tarde.

A amostragem é a possível, foram 38 Agrupamentos/Escolas que forneceram os seus dados disciplinares, aos seus Diretores o meu obrigado. Referir também que esta é uma iniciativa apoiada pela ANDAEPo que reflete a sua atenção pela matéria.

Uma nota importante: como as escolas não possuem todas os mesmos dados, fui obrigado a reduzir a amostragem em alguns parâmetros.

Alguns dados sobre a amostragem:

Amostragem por Distrito

Ligação com o ME

DADOS GERAIS DO ANO LETIVO 2014-2015

Total de Participações Disciplinares9130

Universo de 38 Agrupamentos/Escolas (4,4% da totalidade dos Agrupamentos/Escolas nacionais)

Nº de Alunos com Participações Disciplinares4229

Universo de 34 Agrupamentos/Escolas (3,9% da totalidade dos Agrupamentos/Escolas nacionais)

Total de Medidas Corretivas4554

Universo de 37 Agrupamentos/Escolas (4,25% da totalidade dos Agrupamentos/Escolas nacionais)

Número de Alunos que Cumpriram Medidas Corretivas1597

Universo de 31 Agrupamentos/Escolas (3,5% da totalidade dos Agrupamentos/Escolas nacionais)

Total de Medidas Sancionatórias1333

Universo de 37 Agrupamentos/Escolas (4,25% da totalidade dos Agrupamentos/Escolas nacionais)

Número de Alunos que Cumpriram Medidas Sancionatórias (vulgo suspensão)847

Universo de 31 Agrupamentos/Escolas (3,5% da totalidade dos Agrupamentos/Escolas nacionais)

 

Para terem uma noção do número de alunos envolvidos, as 38 escolas tinham 55016 alunos no referido ano letivo.

 

EVOLUÇÃO DA DISCIPLINA NOS ÚLTIMOS 4 ANOS LETIVOS

 

Participações Disciplinares 2011-2015
Universo de 23 Agrupamentos/Escolas.Cerca de 30 mil alunos.

 

Perc Alunos P.D
Universo de 23 Agrupamentos/Escolas. Cerca de 30 mil alunos.

 

Medidas Disciplinas 2011-2015
Universo de 23 Agrupamentos/Escolas.Cerca de 30 mil alunos

 

Medidas Corretivas 2011-2015
Universo de 19 Agrupamentos/Escolas. Cerca de 25 mil alunos.

 

Medidas Sancionatórias 2011-2015
Universo de 19 Agrupamentos/Escolas. Cerca de 25 mil alunos

 

% de alunos medidas disciplinares 2011-2015
Universo de 19 Agrupamentos/Escolas. Cerca de 25 mil alunos

Na recolha dos dados estatísticos foram também realizadas algumas questões, ficam os resultados:

Ciclo de ensino com mais P.D
Universo de 38 Agrupamentos/Escolas

 

Período letivo com mais P.D 2014_2015
Universo de 37 Agrupamentos/Escolas

 

Período do dia onde ocorrem mais P.D 2014_2015
Universo de 37 Agrupamentos/ Escolas

 

O Agrupamento Possui um Gabinete Disciplinar 2014_2015
Universo de 38 Agrupamentos/Escolas

CONCLUSÕES

Ano Letivo 2014-2015

O número de participações disciplinares (ordem de saída de sala de aula), é claramente elevado, são mais de 9000 participações em apenas 4% dos Agrupamentos/Escolas, um universo aproximado de 50 mil alunos. O que, extrapolando para uma amostragem de 100%, levaria, hipoteticamente, a um número superior a 200 mil participações disciplinares num só ano.

O ciclo de ensino com mais indisciplina registada foi claramente o 3º ciclo (63%)

Durante o 1º período foi quando ocorreram mais situações de indisciplina (43%), logo seguido do 2º período (40%)

Foi durante o período da tarde que ocorreram mais situações de indisciplina (38%).

A grande maioria das escolas da amostragem possui um gabinete disciplinar, apesar de esta não ser uma prática generalizada.

Evolução sobre os últimos 4 anos letivos (2011 a 2015)

Não existe uma abordagem uniforme de tratamento de dados disciplinares por parte das escolas

O número de participações disciplinares e número de alunos alvo das mesmas, não apresentou uma tendência clara de descida ou subida. Porém, o último ano letivo (2014-2015) foi o ano que evidenciou menos registo de ocorrências

A percentagem de alunos com participações disciplinares, ronda os 7%  e subiu em todos os anos da amostragem (quem é professor sabe que basta 1 aluno para boicotar uma aula)

O número de medidas corretivas também tem oscilado, tendo diminuído no último ano letivo.

O número de medidas sancionatórias apresentou uma tendência de descida.

A percentagem de alunos que cumpriu medidas corretivas e sancionatórias foi residual, variando entre os 1% e 2%.

A indisciplina pouco grave foi claramente inferior à indisciplina muito grave

O que falta fazer?

Conhecer a dimensão da indisciplina por tipologia, idade e género.

Verificar se a retenção faz aumentar os índices de indisciplina e vice-versa.

Comparar os fatores geográficos e níveis socioeconómicos com os índices de indisciplina.

Saber se a formação académica dos pais afeta a indisciplina dos alunos.

Conhecer as dinâmicas de sala de aula que potenciam situações de indisciplina.

Conhecer a tipologia e regularidade de situações de indisciplina nos recreios escolares.

Saber se as mudanças ao estatuto do aluno influenciaram as percentagens de medidas aplicadas, tanto sancionatórias como corretivas.

Propostas:

Criar um sistema de monitorização informática, que recolha os dados disciplinares de todas as escolas portuguesas;

Orientar as escolas de forma a existir uma maior uniformidade na aplicação de medidas disciplinares;

Desburocratizar o estatuto do aluno, principalmente nas questões disciplinares;

Incluir na formação de base de futuros docentes e não docentes uma componente teórico-prática de gestão/mediação de conflitos;

Fornecer ao corpo docente e não docente, atualmente no ativo, formação específica sobre como gerir/diminuir situações de indisciplina escolar;

Atribuir um crédito horário às escolas, especificamente para a abertura de Gabinetes Disciplinares (equipas multidisciplinares), fundamentais para uma política disciplinar de proximidade;

Reduzir a carga letiva dos alunos e a dimensão das turmas;

Responsabilizar de forma efetiva os encarregados de educação, cumprindo com a legislação vigente e que define o que é incumprimento por parte dos encarregados de educação.

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13 COMENTÁRIOS

  1. Parabéns Alexandre. Estes dados são mesmo uma importante fonte de informação e que podem ajudar a repensar estratégias. A mim levantam-me vários porquês: porque é que o período da tarde é mais propício a indisciplina? porque é que no 3º período há menos indisciplina? Trata-se de uma questão de habituação entre aluno-professor? É porque os alunos indisciplinados acabam por vergar? Porque os professores encontram outras metodologias e abordagens para lidar com a turma e com os alunos?

    Os dados sugerem também uma ou outra abordagem, sendo que a mais óbvia é evitar o período da tarde…

    Como mencionas acho que seria também muito importante perceber as dinâmicas das aulas e caraterizar os docentes que sofrem mais com a indisciplina em termos de idade, sexo, auto-confiança, atitudes e metodologias de ensino que usam e empatia com a turma. Fundamental também é perceber que disciplinas e metodologias de ensino tendem a fomentar mais ou menos indisciplina.

    Enfim…um excelente trabalho Alexandre!!!! Parabéns!!

    Xana Sá Pinto

  2. Muito bom “pontapé de saída”. Seria interessante saber-se quais as principais causas subjacentes e/ou apontadas para tais ocorrências e participações.
    Problemas velhos. Soluções novas?

  3. Importantíssimo documento que espero que sirva para análise e reflexão em outras escolas/agrupamentos e para que estas/estes melhorem as suas práticas… se for caso disso. Obrigada, Alexandre!

  4. Difícil entrar hoje no COM Regras…….As Regras de entrada não estavam facilitadas.

    Muito bom Trabalho e muito bem documentado.

    Esperemos , com imensas dúvidas, que haja vontade de todos e todas – como hoje se diz….- em fazer disciplina…… e não o inverso.

    E se me permitem Senhores e Senhoras Professores, também são Pais e Mães, e façam aos V/ filhos o que querem que eles – os Filhos dos Outros – V/ sejam quando apanham esta malta como Alunos..são deseducados em massa………senhores Professores…

    A Balda o sem Regras a Bandalheira é quem mais ordena neste País….

    Prova disso está aqui e agora este muito bem feito Trabalho.

    Alturas , há, e agora é uma delas, que parece que cada dia tudo pior vai ficar……….

    Ninguém, ninguém, ninguém, quer ajudar o País, só se quer que este nos ajude…..

    Mas!!!!!!!!!!

    Felicitações ao Alexandre.

    Augusto

  5. Boas Iniciativas…
    se há preocupação em resolver «problemas» estamos no bom caminho. esta temática é mt abrangente e a forma de abordagem permitirá tornar o processo ensino/apz mais funcional, ou pelo contrário… andar cada vez mais à procura de (in)soluções.. Afinal pergunto: o problema da indisciplina é um problema do professor?porque lhe impede de dar a «sua» aula? ou é um problema do aluno? porque impede o aluno de realmente aprender? Será que os «problemas» não constituem a base de arranque para a efetiva apz? A forma como lidamos com as situações «problema» é que podem tornar-se o mais fértil terreno de ensino/apz, ou a mais complicada e frustrante «aula»… será que estamos a partir da premissa certa?
    Sou muito interessada por esta ( e outras) temáticas relacionadas com a pedagogia.
    Muito obrigada pelo estudo e pela publicação de forma a que possamos «pensar» nesta questão.
    Felicitações pelo trabalho 🙂

    • O problema está no aluno, no professor e nos pais. Este triângulo tem de funcionar em harmonia para que o sucesso educativo seja atingido na sua plenitude. Não sou daqueles que restringe a indisciplina aos alunos, não sou daqueles que afirma que o professor só tem de ensinar e mais nada. Isso é meter a cabeça na areia e mascarar uma realidade que não existe. O professor hoje em dia além de um exemplo de saber tem de ser um gestor/líder de futuros homens e mulheres.

  6. 1- Nota-se a ausência de alguns distritos. Foi opção do estudo ou recusa em fornecer dados por parte das escolas?
    2- Há um “triângulo” fulcral nesta temática: o docente, o aluno e o E.E. e todos devem assumir direitos e deveres por igual. Usualmente o primeiro só tem deveres e os outros só têm direitos. Mas outros agentes periféricos nesta relação também têm que ser agentes ativos e não passivos e muitas vezes por omissão (DT’s, órgãos de gestão).
    3- Existe um Estatuto do Aluno para cumprir e deve ser cumprido por todos. Muito possivelmente os dados pecam por defeito pois para uma situação documentada e registada muitas outras o não são, desde o início ou “apagadas” ao longo do processo.
    4- Claro que os níveis de indisciplina baixam no terceiro período pois os prevaricadores ficam retidos e deixam de frequentar a escola.

    • 1- Os dados trabalhados foram os dados recebidos
      2- Subscrevo
      3- A “indisciplina paralela” é um problema muito grande o que prova que a indisciplina é um mal geral.
      4- Além da duração do período ser menor.

  7. Existe uma incongruência enorme entre o crescimento do nº de alunos com participações e a diminuição de medidas sancionatórias/disciplinares, Sou professora do 3º ciclo e ensino secundário há 23 anos, tendo acabado a minha licenciatura, ainda com estágio incluído aos 23 anos.
    Comparando com os primeiros anos que lecionei, concluo, com tristeza, que este aumento drástico de casos de indisciplina acompanhado pela gravidade dos mesmos (agressões orais e físicas, humilhações…), tem como principais responsáveis os próprios professores e, em certas escolas, a própria direção (já para não referir quem “trabalha” no Ministério da Educação, que desconhece completamente a realidade e que deveria fazer um “estágio” nas escolas, isto é, dar aulas durante algum tempo).
    Muitos docentes “preferem” chorar nas aulas em frente dos alunos, onde estão aqueles que os levaram a esse ponto, a contarem o que aconteceu ao diretor de turma e/ou direção, pois são considerados in-com-pe-ten-tes e perversamente criticados, pois há quem tente valorizar-se não pelo trabalho que realiza, mas denegrindo a imagem dos colegas. Apesar de atitude dos colegas ser censurável, tal não iliba o colega que, mtas vezes, coloca alunos na rua, sem marcar falta disciplinar, nem fazer uma participação escrita. Para cúmulo, mesmo nos conselhos disciplinares, talvez somando ao facto que já referi, ter medo de represálias, pois o delegado está presente, negam a gravidade das situações vividas, dizendo que está tudo bem. Já estive em conselhos disciplinares, cujas poucas participações que fiz pareciam ridículas comparadas com as outras. Acresce-se o facto do delegado ter dito que só não havia indisciplina nas minhas aulas e das da diretora de turma; contudo só nós as duas defendíamos que as atitudes e comportamentos de alguns elementos eram inadmissíveis. Valeu-nos a, na altura, a indignação e o bom senso da presidente do concelho executivo que não só criticou a atitude dos colegas como atribuiu medidas sancionatórias.

    • Colocou o dedo em várias feridas da “sociedade” escola… A chave é o trabalho de equipa, onde as dores são partilhadas e as conquistas festejadas…

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