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Altamente recomendado.

FAZ QUEIXA AO SARGENTO

Pedro IvoNuno Crato sentiu que ainda não tinha feito tudo pela escola pública. Que a sua marca distintiva carecia de um rasgo final de genialidade. Vai daí, decidiu resgatar os militares na reserva e transformá-los nos novos polícias do ensino. A tropa vai mudar-se para o recreio.

O que vão, afinal, fazer estes soldados desocupados? Várias coisas: impedir agressões entre elementos da comunidade escolar, sejam verbais ou físicas, “defender os direitos das crianças”, protegendo-as “de qualquer forma de abuso”, e ensinar aos petizes a importância de manter intacto o equipamento. Os militares na reserva vão ser privados de uma vida pacata para serem contínuos. Com a vantagem de saberem usar uma arma e terem aptidões para deixar inconsciente um aluno mais temperamental. Chamar a PSP? Só se for mesmo necessário.

Sabe-se muito pouco sobre as motivações desta medida. A Associação Nacional de Sargentos foi apanhada desprevenida. Aos militares não resta outra solução que não seja cumprir o estipulado. Assim o determina o novo Estatuto dos Militares das Forças Armadas. Vamos admitir que a estratégia militarista tem como móbil os números da criminalidade em contexto escolar. A estatística de 2014 ajuda: houve, de facto, mais 340 ocorrências do que no ano anterior, num total de 6693. Vamos admitir, até, que a presença de militares de calças de ganga pode ter um efeito dissuasor. Que os recreios passam a ser espaços pacatos que fazem corar de vergonha os templos budistas. Há, todavia, um senão: 72% das ocorrências em contexto escolar foram de natureza criminal. Ou seja: na esmagadora maioria dos casos, a resposta compete única e exclusivamente à PSP, que está há anos no terreno com o programa Escola Segura. Resultado: gera-se um conflito entre forças e duplicam-se os gastos públicos. Será que ninguém pensou nisto?

Mais: o Estado que quer dar uma vocação militar à disciplina nas escolas é o mesmo Estado que contrata desempregados, ao abrigo de contratos de inserção, e lhes paga meia dúzia de euros para fazerem de… auxiliares nas escolas. Isso mesmo.

O civismo e a educação dos alunos, ou a falta deles, são problemas bem mais dramáticos do que a violência ou delinquência juvenis. E isso não se corrige nos recreios, mas em casa e na sala de aula. Aí sim, precisamos de uma tropa de choque.

Imaginem o diálogo: “Então, Joãozinho, como foi o teu dia? Mãe, o Francisco disse que eu era maricas, mas fui logo fazer queixa ao sargento Antunes. E o que fez ele, filho? Deu-lhe um corretivo: 20 flexões e 15 voltas ao pavilhão da escola. E obrigou toda a gente a ver, como se faz na tropa. Ainda bem, filho. Vais ver que amanhã ninguém se mete contigo na guerra… quer dizer, no recreio”.

Pedro Carvalho (2015). “Faz queixa ao sargento”. www.jn.pt, 16 de junho
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