Quem nasceu primeiro: o insucesso ou a indisciplina?

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Quem nasceu primeiro: o ovo ou a galinha? Todos conhecemos a expressão e o seu significado. Nas questões educativas e disciplinares é frequente tratarmos das feridas e não da doença. A minha escola não é exceção e gostava muito que esta caminhasse para um modelo pedagógico, potenciador de sucesso e menos tradicional. Tenho batido nesta tecla muitas vezes, a minha realidade de lidar com alunos problemáticos em ritmo quase diário, mostram-me que o problema está nos alunos, sim, é verdade, mas principalmente em modelos pedagógicos que não se adequam ao seu perfil.

“Eles têm é que estudar e mais nada”

“No meu tempo eu não tinha nada destas mariquices e fiz a escola na mesma”

São expressões frequentes e até têm alguma razão, mas a escola tornou-se universal e obrigatória até ao 12º ano. As tipologias de alunos e cultura escolar é manifestamente diferente. A mais recente aposta em tutorias é um passo interessante mas para os alunos errados. Alunos com duas retenções e com mais de 12 anos não vão lá com tutorias em grupos de 10. As dificuldades são estruturais e implicam uma resposta metodológica diferente em sala de aula. Aos seus olhos a escola é uma seca, um local de fracasso e de obrigatoriedade indesejada. Uma escola prática, que aposte numa formação de base e que permita adquirir princípios sociais e cognitivos elementares, pode, seguramente, recuperar alunos para a sociedade.

Nos Estados Unidos surgiu um estudo que prova que o sucesso trouxe uma redução significativa de problemas disciplinares. E este debate (que já cansa) entre escola pública e escola privada com contratos de associação, deveria ser substituído por algo muito mais importante – modelos de ensino e suas metodologias.

A escola pública – agora tenho de fazer esta distinção – tem muitos problemas e o insucesso dos alunos, apesar de ter melhorado nos últimos anos continua elevado e a indisciplina também.

Costumo dizer aos alunos que só não gostam daquilo que não sabem e não compreendem, temos de mudar este paradigma, apostando na única força que é capaz de mudar este estado de coisas, a motivação… dos alunos, mas infelizmente também dos professores. E isso só se atinge, com condições laborais e afins, mas principalmente com o sucesso.

Study: To Reduce School Violence, Start With Test Scores

 


As tutorias não vão fazer milagres… (inclui resultados da sondagem) 1

Vejo a recuperação de alunos como um objetivo primordial de qualquer política educativa. A mais recente alteração de terminar com os cursos vocacionais apostando no modelo tutorial é um passo, mas um passo dado para o lado.

Quem são os alunos com mais de 12 anos e que já têm no “currículo” duas ou mais retenções? Não estamos a falar de alunos que começaram agora a derrapar, estamos sim a falar de alunos com falta de pré-requisitos, interesses divergentes dos escolares, altos níveis de desmotivação e fartos, fartinhos de ralhetes e de lhes dizerem que têm de estudar mais.

Um acompanhamento tutorial não é uma má ideia, não me interpretem mal. Um aluno precisa de uma referência, um farol, alguém que o volte a focar no que é realmente importante. Mas tutorias com 10 alunos é uma má ideia, juntar alunos deste “calibre” na mesma sala, ao mesmo tempo, simplesmente não vai funcionar. Ninguém se vai sentir confortável para falar do pai que foi preso, ou da mãe que está desempregada e que o jantar de ontem foi uma simples taça de Corn Flakes…

Um professor com 10 alunos sem programa para lecionar, não passa de um centro de explicações. E ver professores de Matemática a explicar conteúdos de Inglês, ou professores de História a ajudar nos exercícios de Matemática, não passa de um remendo, um mau remendo.

O que estes alunos precisam é de um modelo educativo alternativo, sem grandes metas e metinhas, que seja adaptado à sua realidade, presente e futura, que respeite os seus ritmos e lhes ensine o bê à bá da vida. Os cursos vocacionais podiam ter sido isso, podiam, mas não foram. Quiserem massacrar os miúdos com toneladas de horas letivas, conteúdos cheios de vícios dos programas tradicionais e com horas e horas de conteúdos teóricos.

A atual proposta de tutoria é boa, sim, mas para alunos que começam a perder o comboio, não para alunos que estão na estação há tanto tempo que já nem sabem qual a direção e o objetivo da viagem.

Espero mesmo estar enganado, mas estou muito cético com esta medida. O futuro dirá a sua verdade…

Deixo-vos com os resultados da sondagem e obrigado pela vossa participação.

Reforço das tutorias substituição vocacionais


Contratos de Associação: “Assunto encerrado”, diz governo | Queriam…

Era ótimo, excelente mesmo. Podíamos voltar a falar sobre escola (pública) e tentar melhorá-la pois bem precisa de atenção. A Secretária de Estado bem pode desejar que este assunto termine, e do lado do Governo acredito que esteja morto e enterrado, mas por aquilo que vimos ontem e o “apoio” que o Tribunal de Contas deu à sua causa, muita água irá correr por debaixo da ponte.

O verão será passado a pressionar os pais a matricularem os filhos nas mesmas escolas, o Governo já avisou que é uma má ideia. Não se pode aplicar a máxima de “quem te avisa teu amigo é”, mas o aviso fica feito, caberá aos pais decidir até que ponto querem arriscar a estabilidade educativa dos seus filhos.

Contratos de Associação: “Assunto encerrado”, diz governo

Na opinião de Alexandra Leitão este parecer “determina o encerramento do assunto” na medida em que o ministério da Educação fica vinculado a esta interpretação.

Alexandra Leitão anunciou na TSF “ainda para esta semana, uma reunião com os pais” onde vai apelar a que os pais não façam isso” (matriculem os alunos, tal como os colégios pediram) porque a inscrição nos colégios em turmas, com a expectativa de em setembro haver um fato consumado que obrigue o Estado a financiar é algo que não vai acontecer”

“Esses pais podem ser confrontados em setembro com uma transferência” para o ensino público “mas isso vai ser mais complexo do que se fizerem agora a inscrição dos seus filhos “, explica a secretária de Estado.

“Perplexos”. É como se sentem colégios privados

Depois de escutar as palavras de secretária de Estado da Educação, esta manhã no Fórum TSF, o diretor da Associação de Estabelecimentos do Ensino Particular e Cooperativo (AEEP), Rodrigo Queiroz e Melo disse que “ouvimos um membro do governo em direto, a meter medo à população, a mandar avisos aos pais”, para não matricularem os filhos nas escolas que perdem contrato.

“Isto é inaceitável”, afirma Rodrigo Queiroz e Melo. “Queremos desmascarar uma tentativa de causar pânico nas pessoas”, quando se saber que a Escola Pública pode em qualquer momento aceitar transferências de alunos.


Entendimento sobre (in)disciplina

IcebergJá aqui por diversas vezes escrevi que prefiro a designação de disciplina escolar à de indisciplina (recordo uma e outra). Como prefiro falar em comportamentos escolares em detrimento de (in)disciplina.

Os comportamentos, no caso escolar, são formas de aprender a lidar com o outro, seja ele um colega ou um docente, num caso de igual estatuto, noutro de estatuto diferente. Na escola, no conjunto de comportamentos escolares, desenvolvem-se tanto os mais básicos quanto os mais complexos princípios e modos de socialização. Isto é, a interiorização de uma cultura, dos modelos e das orientações (por vezes não escritas) que suportam relações sociais ou as suas concepções – de autonomia, de subserviência, de crítica, de submissão, de construção, de participação.

Por seu lado, a indisciplina são situações inopinadas, momentos circunstanciais, ocorrências assumidamente voláteis. Têm como ponto comum, entre eles, a rutura, o rompimento de equilíbrios (ou da aciênca). Isto é, e daí a manifesta dificuldade de catalogação, o que para mim num momento é indisciplina noutro pode ser encarado com alguma sobranceria ou mesmo mera irreverência. Essa mesma situação que levou um docente a redigir participação escolar pode, para um outro docente, ser apenas um caso a resolver fruto da idade (adolescência) ou de circunstâncias mais ou menos pessoais e/ou particulares.

A situação poderá ficar mais complexa se levarmos em consideração que, apesar da indisciplina estar diretamente relacionada com o (in)cumprimento de regras, os momentos e as circunstâncias que rodeiam esse acontecimento está repleto de ideias sobre o papel de alunos e de docentes (quando não mesmo da família e da sociedade), os valores que orientam as relações (entre pares e entre desiguais), as funções e os objetivos que se perspetivam para os elementos envolvidos. Mais ainda. Pelas situações de indisciplina, isto é, pelo conjunto de regras que se estabelecem para as relações escolares (ou de sala de aula) torna-se possível aferir a relação que se pretende estabelecer entre a escola e o seu contexto social (ou político). As regras e os preceitos inerentes aos modelos de disciplina escolar, instituem-se desse modo, como mecanismos de regulação entre o que temos e o que queremos, a escola e a sociedade, os que mandam e os que obedecem.

Toda esta conversa a propósito de notícia onde se dá conta do diferente entendimento e da diferente perceção sobre a alteração dos comportamentos, sobre a variação das situações de indisciplina, no tempo e nos atores considerados, alunos e diretores.

Se encararmos as regras escolares como formas de regulação social e individual, entre uma dimensão escolar e uma dimensão social, a escola, os professores e as regras entre uns e outros, em particular o modo como se têm alterado, reconfigurado e reconstruído, têm assumido um papel sobredeterminante nas concepções e na relação democrática, cívica e participativa da pessoa individualmente considerada mas também nas suas dimensões mais coletivas e sociais. Tem sido este um dos grandes méritos da escola, apesar dos comportamentos, preparar para a democracia, para a participação, para o debate, para o entendimento negocial das relações.

Por outro lado, o que para uns (diretores) é visto como uma perda (de controlo, de regras, de normas), para outros (alunos) é visto como uma conquista social, eventualmente de participação, abertura e tolerância.

Finalmente e para o comum dos mortais (docentes e alunos incluídos) a indisciplina tem aumentado ou diminuído? Serão os estudos desenvolvidos sobre os comportamentos e as relações em contexto escolar, fiáveis? Enquanto estudo, é dado destaque a que dimensões disciplinares? Dos professores, da regra, da conformidade, do aluno, das ideias ou dos valores? O que destacam os estudos? Mostrarão ou dirão o que efetivamente ocorre nas escolas? Poderá existir algum excesso de preocupação? Será que existe alguma relação entre preocupações com a indisciplina escolar e a sua mediatização social?

Direi, para terminar este apontamento, que as alterações ocorridas em contexto escolar – muitas delas na base de iniciativas como este mesmo sítio (onde os comportamentos são tema predominante e a regra uma presença nominativa) – serão salutares e de de destacar. De destacar por aquilo que pressupõe a alteração social, de maior implicação, de outras dinâmicas, de outras perspetivas de relação perante as quais a escola e os professores não são nem estão incólumes. Isto é, há indisciplina que é boa. Que nos permite reinventar e redefinir outras/novas regras. Que pressupõe movimento e dinâmica relacional. É isto que, em meu entendimento, o estudo mostra.

Manuel Dinis P. Cabeça

30 de maio, 2016


Os 5 passos para conquistar a “camisola amarela”…

É de 2013, publicado no jornal Expresso e vale bem a pena ser (re)lido tal não é a sua atualidade.

Manual

Manual prático de criação de rendas na Educação

Primeiro passo – Abra um colégio privado. Se possível, em zonas onde há escolas públicas. Assim, tem a certeza que tem alunos. Dê um saltinho à zona de Coimbra que lá sabem bem como se faz. Forneça todos os serviços que a escola pública não consegue fornecer e que lhe permitem dizer que o seu colégio se diferencia pela qualidade. Comece pelo transporte privado e acabe nas aulas de karaté. Para assegurar que corre tudo bem, diversifique o risco. Não, não, não. Não ligue a quem lhe diz que não pode ter uma clínica agregada ao colégio e que também não pode vender cafés.Iniciativa privada é iniciativa privada. Portanto, pode tudo. Só não pode não ser empreendedor educativo.  

Segundo passo – Celebre um contrato de associação com o Estado para que este lhe pague pelos alunos que a escola pública não tem lugar. Agora, pergunta “Mas eu abri o colégio privado numa zona com escolas públicas meio vazias?“. Você de facto não percebe nada disto, pois não? Ainda bem que comprou este Manual que foi especialmente escrito para si. A ideia é que o colégio privado substitua a escola pública. Você quer ou não quer ter rendas? Se lhe perguntarem porque é que tem um colégio numa zona com escolas públicas meio vazias, responda com serenidade e olhar compungido: “Os meninos têm direito a ser muito bem tratados como são aqui no nosso colégio“. Se não conseguir dormir à noite com esta ilegalidade, contrate um alto funcionário do Ministério da Educação como consultor para dormir mais descansado.

Terceiro passo – Selecione cuidadosamente quem admite no colégio. Outra pergunta: “Mas não é suposto eu admitir toda a gente?” Você é quase um caso perdido. Acha que lhe interessa admitir alunos com dificuldades ou com um enquadramento social problemático ou com garantias que não vão ter boas notas? Pois é, não interessa nada. Admita um ou outro com ação social escolar, quando muito. E não se esqueça dos exames e dos rankings. Os jornais ordenam as escolas pelos resultados de alguns exames sem ter em conta outros factores como o contexto social e cultural. Portanto, carregue na preparação desses exames e esqueça tudo o resto.

Quarto passo – Aguarde que um Ministro declaradamente contra a escola pública tome posse. Deixe passar uns anos a marinar. Espere que se instale o debate sobre o cheque-ensino.Dê entrevistas e aprenda a dizer liberdade de escolha a uma velocidade de meia sílaba por segundo. Passa bem na televisão. Aguarde serenamente a entrada em vigor do novo Estatuto do Ensino Particular e Cooperativo, o que até já aconteceu no passado dia 5 de novembro. Com este novo Estatuto, o Estado passa a poder celebrar contratos de associação sem restrições, quer haja escolas públicas na zona, quer não. Já viu como o colégio que abriu em flagrante violação da lei já está legal?Agora que já dorme descansado, também já pode despedir o alto funcionário do Ministério da Educação contratado como consultor.

Quinto passo – Com o seu colégio legalizado pode abrir mais colégios à medida que forem fechando escolas públicas. Terá que admitir alguns alunos com o cheque-ensino mas serão sempre poucos, pois já se sabe que o seu colégio não tem lugares ilimitados. Mantenha os critérios de seleção descritos no terceiro passo. Para celebrar novos contratos de associação e abrir novos colégios, readmita o alto funcionário do Ministério da Educação como consultor. Previna o futuro e tenha a seguinte cábula à mão para debitar com um ar indignado para jornalista anotar: “Fiz avultados investimentos para ter este colégio a funcionar e agora querem acabar com o contrato Vivemos num Estado totalitário sem liberdade de escolha. Se o contrato acabar, o colégio vai ter que fechar e é a educação destas crianças que fica posta em causa“. Goze bem as suas rendas por muitos e bons anos. E não se preocupe se o Estado acaba por gastar muito mais para ter piores resultados. 

Epílogo: Quando reparar que as verbas para o ensino especial diminuem e as verbas para os seus colégios aumentam, pestaneje. Não é nada consigo.

osdiasuteis@gmail.com

PS: Este Manual foi parcialmente baseado na reportagem da TVI sobre este assunto transmitida no passado dia 4 de novembro.


Sorriso Amarelo 3

sorriso amareloDepois de várias notícias com argumentos e cartazes para todos os gostos, chegando ao ponto de ver cravos amarelos e da RTP anunciar a presença 30 mil pessoas… quando ainda ninguém tinha chegado… Constato que independentemente da formação educativa, a febre de uma manif tolda o raciocínio, quer dos participantes, quer dos espetadores, e anda muita gente de sorriso amarelo e por motivos diferentes…

Assunção Cristas chega ao ponto de afirmar que a escola pública pode ser sacrificada e Mário Nogueira cai na esparrela de anunciar uma manifestação em prol da escola pública. Até compreendo que as escolas com contrato de associação recrutem no resto da escola privada, tentando colocar esta questão ao nível do público vs privado, mas não o é, ou não deveria ser. Mário Nogueira ao entrar na clubite da minha manif é maior que a tua, dá um passo perigoso, principalmente quando existem tantos pontos que precisavam de maior atenção.

Não nos podemos esquecer que estamos a falar de apenas 1% das escolas privadas e todos, incluindo eu próprio, estamos a dar demasiado destaque a este assunto. Mesmo que indiretamente esteja aqui em causa a privatização do ensino e a sua municipalização, é por demais o que se está a passar. Andamos nisto para aí há um mês, já farta, porra!

Com sorrisos amarelos também devem ficar os pais, quando dos colégios se ouvem os apelos para matricularem os novos, repito, novos alunos nas respetivas escolas. Cada pai sabe até que ponto está disponível a utilizar os seus filhos neste jogo especulativo, mas uma coisa é certa. A escola pública nunca escolheu alunos, nem os discriminou, todos, TODOS, serão recebidos de braços abertos, amarelos, verdes, azuis, vermelhos, às bolinhas, sem bolinhas, no início, a meio ou até no último dia de escola.

Pensem nas crianças… pensem nas crianças…


O avesso da camisola amarela 1

diretor não me despeçaA Rita sai do banho apressada e os seus olhos procuram de imediato o relógio na mesa-de-cabeceira. Outra vez atrasada. A celeridade dos gestos não se coaduna com um Domingo soalheiro de Primavera. Outro fim-de-semana que não lhe pertence. A camisola amarela repousa, plana e engomada, em cima da cama.

Enquanto se veste, as várias etapas da sua vida assomam-lhe à memória como num filme antigo. Lembra-se de quando pela primeira vez concorreu ao concurso de professores e ficou colocada numa escola a mais de trezentos quilómetros de casa, longe do morno colo familiar e do abraço do namorado, seu amor de sempre, destinado a si desde as carteiras da escola. Do quanto lhe custava sair, madrugada fora, às segundas-feiras, e de passar toda a semana sozinha num lugar que não era o dela, dos momentos de solidão e saudades de casa, onde só retornava aos fins-de-semana.

Depois casou-se e logo descobriu que estava grávida, no mesmo dia em que soube da sua próxima colocação numa nova escola, ainda mais longe do que a primeira. O desespero e a aflição não se escoavam nas lágrimas que teimavam em correr, sempre que pensava no futuro da sua vida de eterno saltimbanco, que tão bem conhecia dos colegas de estrada.

Então, através de um amigo de um amigo de uma pessoa da família, conseguiu uma entrevista de emprego no colégio da sua cidade e lá foi, a apreensão afogada na garganta, saber com que linhas se alinhavava a vida numa escola privada. Foi desde logo informada que ali se vivia a escola ‘em família’, que se ‘vestia a camisola’, que ‘se dava o tudo por tudo’ e que – como em qualquer boa família que se preze – os problemas que surgissem era resolvidos tendo em vista o bem geral da comunidade e não os interesses pessoais de cada um. Assim sendo, afiançou-lhe o senhor director de indicador em riste e semblante austero, não se admitiam ali os vícios da escola pública, a bandalheira das diatribes sindicais e os privilégios corporativos dos professores, tão prejudiciais às metas de excelência que eram apanágio daquele estabelecimento.

E lá vestiu a Rita ‘a camisola’, tantas vezes impregnada de abusos e arbitrariedades, tantas vezes encharcada de humilhações e atropelos aos seus direitos laborais, frequentemente açambarcadora voraz do tempo que havia de ser seu por direito. E sempre que era chamada ao gabinete do director, para ouvir de viva voz e cabeça baixa as queixas de um encarregado de educação desagradado com a avaliação do seu petiz, a Rita pensava nas suas amigas e colegas do ensino público, eternas contratadas, há décadas a calcorrear quilómetros para trabalhar.

E sempre que era chamada em cima da hora para, no seu tempo livre, ir dar as aulas a que a esposa do senhor director, subitamente indisposta, não poderia comparecer, a Rita consolava-se com o privilégio que era sair do colégio, ainda que tarde e a más horas, e preparar o jantar das crianças, dar-lhes banho, poder aconchegá-las nas caminhas quentes nas noites de Invernos, todas as noites, de todas as semanas, do ano inteiro.

E sempre que comparava o seu recibo de vencimento, tantas vezes arbitraria e maldosamente amputado ao sabor de razões manhosas mas indiscutíveis, ao dos colegas da escola pública, a Rita não deixava de pensar que as escassas dezenas de euros que eles ganhavam a mais do que ela jamais chegariam para pagar as despesas, o desgaste e o desalento de estar longe dos seus.

A Rita olha para a camisola amarela em cima da cama, a camisola que resulta das decisões que tomou nas encruzilhadas da vida, das escolhas que fez e que achou que melhor serviriam o bem-estar dos seus e a sua felicidade. Sabe que regressam agora todos os medos. A angústia, a aflição e a desesperança de não ter trabalho voltam a corroer-lhe o espírito e a puxar-lhe o tapete debaixo dos pés.

Sabe isso tudo, mas não tem vontade de ir para a rua e reivindicar coisas que não são honestas. E sabe que vestir aquela camisola, naquele Domingo de Primavera, é defender o indefensável. Respira fundo, ao mesmo tempo que a enfia rapidamente pela cabeça e os braços enveredam intuitivamente pelas aberturas das mangas. Talvez, se o director a vir na manifestação, envergando com dedicação e entrega a camisola amarela da causa, ela ainda tenha uma ínfima hipótese de estar entre os poucos escolhidos que mantêm o seu posto de trabalho. Não pode agora perder a esperança.

MC


Não são necessários 25 dias de férias, nem 35 horas de trabalho, antes mudar atitudes. 2

35 horasA vontade de desfocarmos os temas, que de facto interessam a quem trabalha – e não só nesta área- e bater na mesma tecla até à exaustão, e criar muito alarido em torno da mesma “coisa”, é um erro, e nada vantajoso.

Se conseguirmos neste nosso País, ter em todas as empresas, pequenas, médias e grandes, gestores capazes, competentes e informados, à frente das mesmas, criando uma “organização organizada”, é meio caminho andado para se ser mais produtivo, mais empenhado, ter melhores condições de trabalho, com apreciação e reconhecimento do mérito.

E se – com imensas dúvidas- algum dia fosse possível chegar a este patamar, tudo o resto seria tão desnecessário, logo, esquecido.

As férias estão definidas e bem, e deveriam – não são! – ter que ser obrigatoriamente gozadas por todos os trabalhadores, em 22 dias úteis/ ano.

Criou-se, a dada altura, uma inversão que foi dar mais 3 dias de férias, “amarrados” à assiduidade do trabalhador, que quanto menos faltasse mais dias teria de férias.

Sendo que, a assiduidade deve ser um dever de quem trabalha, evidentemente retirando os casos de força maior, como doença, acidente do próprio ou familiar próximo e/ ou morte também de familiar, de resto o contrato individual de trabalho entre o Empregado e o Empregador implica direitos e deveres de ambas as partes. Entre as quais, a assiduidade ao trabalho. Logo não premiável, ou se o for de outra forma, que não trabalhando, depois, menos.

E o mesmo quanto às 35 horas de trabalho. Se, se houver um bom ambiente de trabalho, se houver mérito atribuído honestamente a quem o tem- e não por decreto – se nos locais em que possível for houver flexibilidade no horário diurno/semanal de trabalho, tanto no público como privado devem-se manter as 40 horas/semanais.

Não se pede ao trabalhador para “estar mais tempo dentro da empresa/instituição” como quase um castigo. Pede-se que esteja as 40 horas, pontualmente à entrada e à saída, e que nestas 40 hortas trabalhe. Ponto.

Pede-se ao Empregador que pague o trabalho prestado conforme acordado, que tenha uma boa e bem organizada “organização” dentro no local trabalho – o que demasiadas vezes, não acontece-, que premeie o mérito e nunca a “cunha”, que faça valer cada trabalhador e a equipa como tal, e que estimule abertamente os trabalhadores, dando-lhes melhores, boas, condições de trabalho.

Não serão, as menos 5 horas de trabalho semanais e os até mais 3 dias de férias anuais que vão fazer a diferença positiva, mas em vez “disso” tudo o resto deveria “ter” que ser exemplarmente bem gerido, com direitos e deveres de ambas as partes, com um bom ambiente de trabalho, e com vontade de todos de todos os lados fazerem mais, mas essencialmente melhor. E a satisfação do trabalhador ser olhada como a satisfação de um cliente, não pelas horas a menos de trabalho ou dias a mais de férias, e, aqui poder-se-ia implicitamente chegar, se o resto fosse estabelecido, mas não como uma prioridade!

Continuar a bater sempre e só na mesma tecla, estafada, só se justificaria se não fosse preferível e de que forma, melhorar genericamente as condições de trabalho, o local de trabalho, o mérito! Todos temos que um dia mudar de atitudes e mentalidades, todos, e cada um, em benefício de todos, e do País! . Empregadores, Empregados, Sindicatos, Ministros, todos, todos e cada um. Mas…..Não está fácil!

Augusto Küttner de Magalhães


Sondagem da Semana | Como avalia o desempenho do Ministério de Educação nestes 6 meses.

O governo fez 6 meses e consequentemente também o Ministro Tiago Brandão e toda a sua equipa. Apesar do curto espaço de tempo, já ocorreram uma série de alterações no meio educativo e mais virão no futuro. Para contextualizar o vosso voto e não restringi-lo apenas à mais recente polémica com os contratos de associação, deixo um resumo das principais medidas se a memória não me falha.

Novo modelo de avaliação (fim dos exames de 4º e 6º ano e implementação das provas de aferição).

Fim da Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades (PACC).

Suspensão dos testes de Cambridge no 9º ano.

Fim da bolsa de contratação de escolas (BCE).

Renovação dos contratos a termo dos assistentes operacionais.

Proibição de abertura de novas turmas em algumas escolas com contratos de associação.

Fim dos cursos vocacionais e aposta em tutorias.

Votem e partilhem s.f.f.

Nota: para os desconfiados que pensam que não tenho mais nada que fazer que andar a inventar resultados de sondagens, fica o respetivo link do plugin opinion stage.