António Costa abre a porta à vinculação de mais professores

António Costa anda a brincar com os professores, ou então é Tiago Rodrigues que anda brincar com estes. Não se pode dizer que se quer dar estabilidade e que se compreende muito os professores, pois até esteve casado com uma mulher educadora, blá, blá, blá, e apresentar uma proposta que fazia sentido sim, mas no dia 1 de abril.

Estas tretas políticas de querer ficar bem na fotografia, depois de cortar as pernas a quem tinha ambições legitimas, já não engana ninguém.

Além disso, se a estratégia é apresentar uma proposta má para depois ficar com uma mais ou menos, é algo que sinceramente já chateia, lembra uma feira qualquer de um país de terceiro mundo em que tudo se tem que regatear. Para sermos sérios e credíveis, convém apresentar propostas sérias e credíveis e que vão ao encontro das suas palavras.

É que já não tenho paciência para estes “miminhos” depois de nos espetarem a faca nas costas…

António Costa mostrou-se compreensivo. “Partilho consigo a necessidade de termos um corpo docente estável”, começou por dizer. “Talvez por ser casado há muitos anos com uma pessoa que foi durante muitos anos educadora, tive sempre muitas dificuldades em compreender como é que, numa área em que é relativamente fácil prever com décadas de avanço a necessidade que vamos ter” de professores não seja “possível termos um corpo docente estabilizado”.

 

“Queremos estabilidade”, garantiu. “Há uma proposta negocial apresentada, estamos a aguardar a resposta dos sindicatos”, e “vamos negociar com espírito aberto, construtivo, para assegurar a plena cobertura das necessidades permanentes”, bem como para “assegurar estabilidade para todos os profissionais que asseguram essas necessidades permanentes”, e assim “pôr termo a esta situação de instabilidade absoluta”.

António Costa abre a porta à vinculação de mais professores

(Jornal de Negócios)

Desorientação Concursal

desorientacaoA proposta de alteração à legislação  dos concursos de professores enviada pelo ME é uma provocação aos professores contratados. Mesmo sendo uma proposta,  (que poderá sofrer alterações nas negociações) não deixa de ser um princípio que deixou perplexo muitos professores que há dezenas de anos trabalham na escola pública. Vejamos dois aspetos que se consideram, no mínimo alucinantes –   a continuação da norma-travão e os moldes da vinculação  extraordinária.

A norma-travão – já escrevi alguns textos sobre as injustiças provocadas por esta norma, inventada pelo MEC anterior.( aqui e aqui e também este). A única salvação justa desta norma-travão seria a seguinte: que todos os docentes  pudessem concorrer às vagas abertas por esta norma, por grupo de recrutamento e ordenados segundo a graduação  profissional, sem a existência de nenhuma 1ª prioridade.

( É de salientar que a norma-travão foi já considerada inconstitucional em tribunal precisamente por esta 1ª prioridade ser discriminatória dos opositores ao concurso).

A vinculação  extraordinária – Além do ridículo que é,  o excessivo número de anos de tempo de serviço, 20?????,  ainda a exigência que este tenha sido prestado com qualificação profissional. Ora, este último requisito é de uma grande perversidade, pois este prejudica precisamente muitos professores com longos anos de serviço, em que nos seus cursos iniciais, simplesmente, não existia a via ensino. Não contabilizar esses anos, durante os quais muitos professores contratados colmataram as necessidades  do sistema com habilitação própria (na altura a única existente para alguns grupos de docência) seria de uma enorme injustiça e ilegalidade. E é bom relembrar que a profissionalização da maioria destes docentes foi facultada pelo próprio ME, e  que só a partir de 2009 é que a qualificação profissional  para a docência se tornou exigência para se ser opositor ao concurso . Por estas razões, é de uma grande ironia e injustiça não contabilizar os anos de serviço antes da profissionalização a quem deu efectivamente aulas em escolas públicas , e no entanto, permitir que grande parte do  tempo de serviço para perfazer o cômputo dos 7300 dias ou possa ter sido acumulado em serviço equiparado ou em contratos do ensino privado (em que existia a obrigatoriedade das escolas privadas facultarem a profissionalização aos seus docentes e respetiva vinculação no prazo de três anos).

(Inacreditável, mas é o que está neste momento proposto).

– Existe nesta proposta uma incongruência original, em que não se vislumbra qual o princípio  orientador, pois esta desvirtua a graduação  profissional nas condições de acesso à vinculação e em simultâneo mantenha-a (e muito bem) para o concurso de contratação anual, concurso interno e mobilidade.

As vinculações extraordinárias , foram criadas para casos extraordinárias de precariedade.  Esta proposta tenta apagar a precariedade dos docentes quando não contabiliza parte do seu tempo de serviço, e deixa-os sem acesso à vinculação. Muitos que trabalham continuamente para o ME e que pela própria especificidade do concurso, preencheram, por vezes, as necessidades de horários incompletos e temporários ( possibilitando que os alunos não tivessem sem aulas ), são através da norma-travão afastados do acesso às vagas de quadro. O não reconhecimento do papel destes docentes, para que o sistema de ensino funcionasse e funcione, é de uma ingratidão avassaladora, e são estes os verdadeiros docentes precários, os que sempre trabalharam, há longos anos na escola pública a exercerem funções docentes, a trabalharem diretamente com alunos em sala de aula.

– Esta proposta deverá ser severamente corrigida.

Mesmo que entre o limite do aceitável e do possível, poderíamos sempre ter um diploma de concursos que seja coerente com alguns princípios fundamentais, como a graduação  profissional,  e que no mínimo,  não agravasse as injustiças através da sua completa distorção, como acontece neste momento com a norma-travão e com a portaria da vinculação  extraordinária.

Álvaro Vasconcelos

Professor Contratado


O quotidiano de um professor de apoio (1º ciclo)

professor-apoioSou professor de cerca 40 alunos de seis turmas de 2º ano, 15h por semana da parte da manhã e 10h da parte da tarde, com um tempo médio de 4,5h por turma.

Os meus alunos estão todos com dificuldades de aprendizagem, na leitura e na escrita, embora também na sua maioria com dificuldades na matemática e estudo do meio. Trabalho em duas escolas distintas, numa escola de 5 salas com 2 turmas, e numa escola de 15 salas com 4 turmas.

O meu trabalho no subdepartamento do 2º ano consiste em colaborar com os titulares de turma, de forma a encontrar estratégias para recuperar os alunos, e evitar que tenham de ficar no 2º ano. Umas vezes dentro da sala de aula, outras vezes em pequenos espaços escolares (na sala de estudo, ou num recanto da biblioteca), com 6 alunos em média procuro rever casos de leitura, ou reiniciar a aprendizagem através de lições apelativas e métodos diversificados da aprendizagem da leitura.

Algumas vezes uso computadores, onde os alunos exercitam jogos de leitura e escrita com prazer. Alguns alunos aprenderam a retirar as palavras para o caderno, de forma a terem um suporte de apoio à escrita no computador. O exercício do conhecimento da equivalência de letras maiúsculas e minúsculas é sempre garantido. O empenho de alunos desinteressados aumenta, e por vezes é o seu renovado empenho que pode garantir o desejado, mas difícil objetivo de aprendizagem da leitura/escrita.

Só a consistência de um trabalho  mais individualizado, de três dias semanais ou mais, pode fazer a diferença na aprendizagem de alunos com menos capacidade cognitiva, desinteresse pela escola ou  hiperatividade. 

Comparando este ano letivo, com o anterior verifico que no meu agrupamento houve um  forte reforço de professores de apoio, (fruto da política desastrada do anterior ministro, que castigava no crédito horário, as escolas com notas baixas na avaliação externa)  que me tem permitido fazer um trabalho com a sequência desejada, para a recuperação de alunos com dificuldades de aprendizagem.

O momento de maior satisfação a nível profissional é quando um aluno cuja esperança se tinham esgotado, aparece com um livro da biblioteca na mão e nos lê a primeira página e sabemos que a não decorou.

Veja também Como funciona o apoio educativo no 1º ciclo

Duilio Coelho

Professor do 1º Ciclo e autor do blogue Primeiro Ciclo


Site da Semana | Movimento Código Portugal

Antecipo a rubrica do site da semana pois o prazo termina dia 11.

Entre 5 e 11 de Dezembro, o Movimento Código Portugal desafia Alunos, Professores, Escolas e Comunidades Educativas em todo o país, para uma ação global de familiarização com a programação e o código. É muito fácil!

A contribuição de cada um vai somar-se à dos colegas e acender a luz que representa a nossa Comunidade Educativa na grande árvore de Portugal! Quantos mais participantes, mais luzes se irão acender.

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PISA 2015 | Tempo de aprendizagem em Portugal supera a Finlândia em 558 minutos semanais, mas os resultados são inferiores. 1

Como repararam, o ComRegras divulgou dados que foram diferentes dos publicados na comunicação social, não foi por acaso, a informação existente no PISA é muita e quis sair das páginas centrais…

No entanto, não posso deixar de salientar e mostrar a minha satisfação pela evolução positiva registada nos últimos 15 anos em Portugal, temos todos de refletir, inclusive eu próprio, se as críticas feitas são efetivamente justas… ou se são as necessárias para superar a mediania…

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PISA 2015: alunos portugueses ficaram pela primeira vez acima da média da OCDE

(Público)

Sobre o PISA, termino estes cinco artigos, com aquela que acredito ser a principal diferença entre os principais sistemas educativos e o ensino português. A eficácia! Apesar de estarmos praticamente na média da OCDE, os métodos de ensino portugueses não são tão eficazes como as “elites”. Só se pode chegar a esta conclusão (que outra pode ser?). Utilizamos mais tempo, mas mesmo assim os resultados não são tão positivos ao nível da matemática, leitura e ciências.

Apesar da evolução positiva dos últimos anos, Portugal ainda precisa de optimizar o seu sistema de ensino se quer chegar ao pelotão da frente.

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Por fim uma breve referência à quebra do ensino Finlandês. Algo se passou e quem está de fora tem alguma dificuldade em compreender as suas causas, mas a verdade é que foi a própria Finlândia que quis mudar de paradigma e “acabar” com as disciplinas tradicionais. Provavelmente só o próximo PISA poderá mostrar se esta alteração é benéfica ou se vai aprofundar a sua queda.

Quanto a Portugal, é continuar o seu trabalho. Vários foram os ministros que passaram pela 5 de outubro e muitos deles criaram grandes anti-corpos no corpo docente e com toda a razão. Foi por isso surpreendente, mesmo muito surpreendente, o gráfico que encontrei numa ronda pela blogosfera, mais propriamente no Insurgente. É que fiquei literalmente de boca aberta…

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Fonte: O Insurgente

Alunos versus FENPROF

Expliquem lá isto?


PISA 2015 | Os alunos Portugueses gastam mais de 2 horas por dia em estudo depois das aulas. (ex: TPC)

Sobre a tão polémica questão dos TPC e restante estudo depois das aulas, há sem dúvida uma surpresa.

O gráfico em baixo mostra o estudo total em casa, refere-se aos TPC, aulas de apoio e explicações privadas. No total andará à volta de 17 horas por semana, ou seja pouco mais de 2 horas diárias. No entanto, estes resultados para quem acha muito (como é o meu caso), estão dentro da média da OCDE, algo que não deixa de ser motivo para reflexão.

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Figure II.6.20 • After-school study time Results based on students’ self-reports

Quanto à relação entre o desempenho escolar e o estudo depois das aulas, verifica-se que os alunos portugueses precisam de mais tempo para atingir os mesmos níveis de desempenho que os alunos finlandeses ou alemães. Vejam o quadro em baixo.

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PISA 2015 – Opinião Pais | Pais de alunos com piores resultados são chamados à escola principalmente pelo comportamento dos filhos.

Neste artigo o foco está na opinião dos pais.

Os pais são chamados à escola, disso ninguém tem dúvidas, mas segundo o PISA de 2015, o principal motivo pelo qual os pais de alunos com piores resultados são chamados é por motivos comportamentais, ou seja, nada que todos nós já não soubéssemos.

O segundo motivo da sua chamada à escola é para analisarem o desempenho dos seus filhos. O terceiro motivo é novamente pelo comportamento, mas desta vez por sua iniciativa.

Do lado oposto, os pais dos alunos com melhores resultados vão à escola para as participar nas reuniões ordinárias.

Ou seja, uma boa descrição da escola portuguesa, apesar dos dados serem gerais.

 

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Os pais também afirmam que participam entre 4 a 5 atividades na escola, claramente acima da média da OCDE, o que vai ao encontro do esforço que a escola faz em envolver mais os pais. Neste parâmetro estamos no pelotão da frente, mais propriamente no 7 lugar.

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PISA 2015 – Preocupação dos diretores | Assiduidade dos alunos, a indisciplina com os professores e a resistência à mudança. 2

Neste segundo artigo vamos analisar as preocupações dos diretores e que foram reportadas ao estudo PISA 2015. Note-se que estas preocupações foram referidas por representarem mais de 25% dos alunos. A falta de assiduidade, a indisciplina para com os professores e a resistência destes e restantes funcionários à mudança são os fatores apontados como mais preocupantes em Portugal. No lado oposto, como situações menos reportadas, temos o fenómeno do bullying, o álcool, as drogas e a má preparação dos professores.

Não tenho dúvidas que o bullying é um fenómeno muito mais presente mas que infelizmente alimenta-se na sombra, como tal, é de difícil conhecimento. Quanto ao álcool e às drogas, sim, apesar dos jovens portugueses terem elevadíssimas taxas de consumo de álcool, esta é uma prática mais de fim de semana do que em recinto escolar, por isso compreende-se os dados referidos pelos diretores.

opiniao-diretores

Também foi possível verificar que, segundo a opinião geral dos diretores, existe uma clara diferença entre as escolas públicas e privadas, neste caso com vantagem clara para as escolas privadas.

In 48 of 68 education systems, principals in socio-economically disadvantaged schools were more likely than principals in advantaged schools to report that student behaviour hinders learning (Figure II.3.9). Across PISA-participating countries and economies, principals in public schools also reported more student-related problems than principals in private schools did.
When considering teacher behaviour that hinders student learning, the largest differences are observed between public and private schools. In 33 of 59 education systems, principals in public schools reported more teacher-related problems hindering student learning than principals in private schools did (Table II.3.20).


PISA 2015 – Opinião Alunos | Portugueses faltam menos e são mais disciplinados que os Finlandeses.

Foi hoje publicado um dos relatórios mais importantes do mundo educativo, ou ao qual se dá mais importância, o PISA, da responsabilidade da OCDE. A quantidade de informação é gigantesca, por isso hoje vou dedicar 5 artigos a alguns gráficos que achei relevantes. Quem quiser carregue nos links seguintes para descarregar o documento e ver a apresentação em direto.

Volume 1 – Volume 2

Emissão ao vivo da apresentação PISA 2015

Comecemos pelos alunos…

A perceção que os alunos portugueses têm de si é que são disciplinados, ou melhor, que têm nas aulas um bom clima disciplinar para a aprendizagem e que está claramente acima da média da OECD. O mesmo não se pode dizer dos nossos “ídolos” finlandeses, já que os seus alunos queixaram-se do clima existente nas aulas. Esta coisa dos climas e das perceções vale o que vale, e se nos adultos é tão frequente existirem diferentes formas de avaliar a mesma situação, o que dizer no caso dos alunos…

clima-disciplinar

Figure II.3.7 • Index of disciplinary climate in science classes, school characteristics and science outcomes.  Results based on students’ reports

A nível geral, os alunos apontaram como principais manifestações de indisciplina:

Não ouvir o professor ou que está muito barulho e confusão. (1 em cada 3)

O professor tem de esperar muito tempo para os alunos sossegarem. (29%)

Não conseguem trabalhar em condições ou têm de esperar muito tempo para o fazer. (1 em cada 4)

Across OECD countries, the most common disciplinary problems in science lessons (among those included in the student questionnaire) are when students do not listen to what the teacher says and when there is noise and disorder in the classroom (Table II.3.10). For example, about one in three students reported that, in every or most sicience lessons, students do not listen to the teacher or that there is noise and disorder; 29% of students also reported that the teacher has to wait a long time for students to quiet down in every or most lessons; and one in four students or fewer reported that, in every or most science lessons, they cannot work well or have to wait for a long time to do so.

Quando ao absentismo, podemos constatar que na opinião dos alunos finlandeses, estes faltaram e não foi pouco 2015, tendo um agravamento de 26% comparativamente a 2012. Os alunos portugueses afirmaram que mantiveram os índices de absentismo escolar, rondando os 20%.

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Nota: o gráfico em cima baseia-se no período de 15 dias anteriores à aplicação do PISA.

 


Este mundo está perdido e com falta de educação (?) (!) mas eu tenho um herói da bola….

Título de velho? Já vão perceber porquê se lerem até ao fim. Afinal já estou na média etária da classe.

Neste blogue falamos de educação e, todos os dias, por esta hora, fazemos destaques das notícias do dia sobre educação.

A educação é a vida e, por isso, tudo tem a ver com esta nossa área de atividade. As notícias de economia já tiveram mais saída e, quem assumiu a obrigação de ver notícias sobre o tema educação todos os dias, vai percebendo que as nossas começam a suscitar mais interesse nos jornalistas.

Mas, mesmo as que não são, no imediato, de educação podem ter a ver com isso. Por exemplo, é uma falta de educação o que se diz que se passou, quanto ao pagamento de impostos, de alguns jogadores (tema com que o Correio da Manhã fez destaque hoje).

Não percebo nada de futebol, e nem o conhecia antes de hoje, mas já escolhi o meu herói da bola: chama-se Martin Rafael Ødegaard.odegaard_efe2

Pelos vistos, foi-lhe proposto aderir a um sistema de fuga ao fisco e paraísos fiscais e recusou, por si e por conselho do pai. Alegadamente, aos seus ouvidos nórdicos soava-lhe imoral, diz o mesmo Correio da Manhã na edição de hoje em papel.

Tanto referencial de educação para tanta coisa e andamos mesmo a esquecer a educação cívica que, pelos lados da Europa gelada, nunca passou de moda.

E ora digam lá que a Educação não melhora o mundo: se são jovens os únicos que recusam a imoralidade que todos os outros normalizam.

Ao contrário do que muitos dizem o mundo talvez não esteja nada perdido…..(nenhum professor pode acreditar nisso, certo?)

Dose diária de Marcelo, racismo e diarreia legislativa

Olhar diariamente as notícias que tenham a ver com educação obriga também a falar muito do Presidente da República que hoje deitou o olhar para o ensino superior (aquele de que é, de origem, bom professor). Apelou a mais dinheiro, diz o Correio da Manhã. Era preciso que as organizações representativas da nossa área o fizessem ver o básico e secundário com lentes de mais proximidade e talvez saíssem outras frases, a merecer a atenção noticiosa e que pusessem na agenda os nossos problemas.

Por exemplo, será que, se lhe perguntassem, dizia que tinha vontade de dar aulas numa escola básica, no fim de mandato, como vem dizendo que tem, num Instituto Politénico? Disse hoje outra vez.

O Público fez destaque com várias notícias que tem a ver com educação: as queixas sobre problemas de discriminação e racismo de associações de afro-descendentes, que incluem referências às questões escolares. Tema que merecia muito debate (mesmo se alguns, há uns tempos, tentaram instrumentaliza-lo, como é costume, fazendo arremesso contra os professores).

O BE veio anunciar uma proposta legislativa para dar direitos a pais que sejam estudantes.Ideia simpática, e que qualificaria de boa, se não soubesse, como sei, que os direitos vão ficar muito lindos no papel. Como os deputados do BE (e dos outros partidos me geral) pouco sabem de como administrar operacionalmente, o que quer que seja, a lei vai ser linda, mas de concretização inviável. É o costume e, desta vez, dificilmente escapa. Direitos na lei já todos temos muitos…..Vejam lá a trapalhada que são os direitos dos pais professores para irem à escola dos filhos.

Espingardas ou manteiga? Desportos marciais ou preservativos?

5820c0e9caea0O ministro participou no anúncio de que o judo vai entrar no desporto escolar em 10 escolas diz o mesmo Público. Acho bem, mas já agora porque só o judo merece tal destaque?

A associação de planeamento familiar (APF), a instituição da sociedade civil mais prestigiada na área, veio esclarecer melhor a questão do referencial sobre educação sexual e falar, bem, de problemas práticos do tema, que a polémica fácil e a lógica de leitura da papelada teórica fazem esquecer.Fazer bem implica algo menos proclamatório.

Além da educação sexual, as escolas parece que também vão tapar a “lacuna” da educação para a segurança, paz e defesa, diz o ministro da área.

Nós, faz-tudos que nos amanhemos….. com estas novidades levianas ejetadas da boca de quem acha que, pondo mais coisas em cima das escolas, a educação melhora.

Uma que nos carregou bastante, nunca se penitenciou disso e agora fala como especialista encartada, é Maria de Lurdes Rodrigues. Não li a prosa (abstenho-me bastante, desde que verifiquei que fala de educação, como se percebesse mesmo) mas deixo o link porque o tema pode ter interesse: manuais escolares.

Tudo isso são opiniões, me dirão, mas remeto para outras 2. Uma de Joana Petiz no DN, que começa num tom que me alarmou (a elogiar o sistema educativo chinês), mas acaba a salientar problemas reais dos professores portugueses (mesmo se me parece que o texto leva água no bico):

“Mas nunca se chega ao essencial: a criação de um entendimento alargado que permita um compromisso real para a educação. E que tem de ter uma componente muito forte de respeito e atenção à carreira de docente. Num estudo da Fundação Varkey – que decidiu contribuir para aumentar o respeito pela profissão e distinguir os melhores com um milhão de dólares -, Portugal surge entre os países onde o salário de um professor é menor, há menos compensações e recomendações para seguir esta carreira. Melhorar esta realidade incentivá-los-ia a trabalhar de forma diferente. É aí que começa a verdadeira mudança.”

Cantinas, professores velhos e a melhor escola é a da Shakira….

Noutra onda, destaco os problemas relacionados com refeições escolares relatados por um texto de opinião, em Coimbra, no Diário das Beiras.

Mas, alegremo-nos, tudo na escola vai mudar porque, com grande sentido de oportunidade, um secretário de estado veio dizer que até queria injetar sangue novo no sistema de ensino só que os professores estão envelhecidos. Como os governantes não abrem espaço a aposentações e a malandragem morre tarde, talvez só a exaustão lhes dê abertas ao tal sangue novo.

refeicoes-escolaresSangue, sangrar, fazer sangue ,esta área de palavras é capaz de não ser a mais feliz para um governante se situar nestes temas (sangrar lembra-me logo a Milu) mas, desde que se fale do tema e se ouçam os problemas dos próprios professores (como a peça até faz), deixemos.

Podemos não ser a Jennifer Lopez, que pondera abrir uma escola de dança, ou a Shakira, que financia a melhor escola da Colômbia dizem as notícias, mas acho que não merecíamos ouvir ou ler que o nosso envelhecimento é a causa de obstáculos às reformas, como se vai dizendo em tom de desculpa, sem resolver o problema real.

E, afinal, as duas artistas que referi acima até têm, mais ou menos, a idade da maioria dos professores portugueses (a Shakira já tem 39 anos e JLo passou os 45)

Se os professores estão velhos, aos 40 e 50 (e caminham para mais porque ninguém se reforma e ninguém entra), e se isso parece ser problema, que até o Secretário de Estado tenta uma piadinha, dizendo que há velhos muito jovens e jovens muito velhos, a nossa resposta vai na linha das metáforas anatómicas. Aqui fica uma que a minha mãe dizia perto da reforma: quem lhes comeu a carne há-de lhes roer os ossos…….


SPLIU | Parecer do Gabinete Jurídico sobre os Contratos a Termo e a Vinculação Definitiva

Existe uma clara diferença no tratamento aos funcionários do Ensino Público comparando com os do Ensino Privado. Parecer de autoria do advogado António Mateus Roque, do gabinete jurídico do SPLIU.

…as razões expressamente invocadas pelo ME para a celebração e renovação sucessiva destes contratos a termo, constitui uma fraude à lei e um recurso injustificado à contratação a termo certo.

Pois estes docentes não foram contratados para satisfação das necessidades transitórias e temporárias, mas sim para satisfação de reiteradas e sucessivas necessidades permanentes das escolas onde foram colocados em resultado do concurso público de professores, apenas com o intuito de tornar permanente a precariedade do trabalho.

é incompreensível que alguém consiga sustentar que o trabalhador da função pública, que não seja funcionário, continue a ter um vínculo precário infinito, para sempre, quando os docentes do ensino privado, passam a ter um emprego estável, após a realização do contrato e mais de três renovações do mesmo.

Não descortinamos qualquer fator ou especificidade no setor público e nos trabalhadores precários do setor público.

São estas situações que o ME tem agora a possibilidade de corrigir, em cumprimento do princípio da não discriminação previsto no art.o 4o da Diretiva, na medida em não poderão os trabalhadores contratados a termo receber tratamento menos favorável do que os trabalhadores permanentes numa situação comparável pelo simples motivo de os primeiros terem um contrato a termo, em obediência ao vetor constitucional de “salário igual para trabalho igual”.


Gerir em complexidade (2ª parte)

Parte II – a complexidade em sala de aula

img_20161007_095905Antes abordei alguns dos factores que imprimiram níveis de complexidade à gestão da escola (participação dos pais/encarregados de educação, diluição das culturas de escola, diversificação de interesses e objetivos, parceiros e parcerias locais). Hoje abordo como estes elementos se imiscuem na sala de aula e a imprimem também aí elementos de complexidade .

Perante a crescente complexidade escolar não é apenas a gestão escolar que se encontra no cerne da questão. Aquela diversidade e a crescente complexidade que lhe está associada, acaba por se refletir e fazer (res)sentir na gestão de sala de aula e na sua dinâmica. Reflexo por intermédio da fluidez, participação, diversificação, heterogeneidade e pluralidade de atores, situações e circunstâncias. Situação que torna a sala de aula onde hoje trabalho tão semelhante àquela que eu tive há dez ou 20 anos atrás apenas pela estrutura organizacional. Um mesmo espaço, um mesmo acontecimento mas tudo o resto (dinâmicas, interesses, estratégias, disposição, comportamentos, atitudes, valores e modelos) bem distantes.

Entre a gestão escolar e a gestão de sala de aula acresce que há 20 anos atrás a escola era uma solução para muitos problemas. Desde logo as literacias, o analfabetismo, as diferentes formas de exclusão (escolar e social). A escola procurava ainda dar respostas, sensibilizar para  os riscos que começavamos a enfrentar (tecnológicos, sociais, europeus). A escola permitia, pelas certificações que conferia, pelo reconhecimento que lhe era dado, assegurar não só as mobilidades sociais como garantir alternâncias profissionais, migrações regionais, isto é, progresso social e pessoal. Hoje a escola é, social e politicamente, um problema. Porque não há empregos, porque nos convencemos dos índices de bem estar social e cultural alcançados. Porque estamos (muitos parecem estar) convencidos que a tecnologia tudo resolve, é milagre onde não há soluções. Porque há um claro desfasamento entre o que se ensina na escola e as vivências, as dinâmicas, os fluxos do nosso quotidiano.

A sala de aula onde se joga na longa duração, para o qual ninguém (nem alunos, nem pais, nem políticos) têm paciência (ou tempo) para esperar.

Gerir tantas e tão diversificadas variáveis dentro da sala de aula, espaço sempre acanhado, é um dos muitos desafios que se coloca aos professores. Procurar equilibrar dinâmicas e interesses, identificar estratégias de envolvimento e implicação para alunos tão diferentes, conciliar objetivos e metas para pessoas que não têm objetivos é o desafio.

Se, governar uma escola em 2016 nada tem de parecido ou sequer semelhante ao que foi gerir a mesma escola na década passada ou há 20 anos atrás, igual situação se estabelece para a sala de aula, apesar das aparentes semelhanças ou da permanência das gramáticas escolares.

Hoje torna-se manifestamente difícil, complexo resolver problemas com base nas redes de afiliação, cumplicidade e camaradagem que caraterizaram grupos e conselhos pedagógicos dos anos 90 do século passado. Mesmo que fossem pontilhadas com tensões, atritos e alguns conflitos, esse  contexto nada tem a ver com as divergências, com a necessidade de negociação constante e, muito particularmente, com as culturas distintas que hoje marcam o mesmo órgão (que de igual apenas tem o nome, algumas funções e a mera aparência de continuidade).

Aquelas que foram as estruturas de coordenação intermédia daquele tempo (em particular coordenadores de departamento e direção de turma), assentes que estavam na informalidade, na pessoalidade, na proximidade em nada se comparam com os atuais. Departamentos que hoje assumem, em muitos casos, mais do triplo de docentes de então. Marcados por relações pessoais de caráter fugaz e fugidio (fluído) dos seus elementos, com encontros (tempos) sempre escassos para resolver ou falar sobre situações (muito menos para resolver problemas). Ou mesmo o desconhecimento por via de uns não frequentaram a “outra” escola ou por simples incompatibilidade de horário.

Para o fecho deste tríptico, para a semana, alternativas e propostas de trabalho.

Manuel Dinis P. Cabeça

Coisas das aulas

5 de dezembro, 2016


Classe docente: o futuro que quer ou o futuro que lhe couber?

futuroQuando paro para pensar em nós como uma classe profissional, ocorre-me que somos uns eternos otimistas, que vivemos na crença que pior que a nossa situação atual é impossível e que de alguma maneira, um dia destes, as coisas melhoram. Com a chegada de um novo ministro de educação, jovem, com um percurso individual distinto e apresentando um discurso onde manifesta a vontade de escutar os professores, sentimos de novo uma réstia de esperança. Infelizmente, quando confrontados com as propostas do modelo de concurso de professores, percebemos que foi “sol de pouca dura”.  Quando li sobre as mesmas, não pude deixar de pensar, ou o ministro da educação ouviu os professores e tem conhecimento do que eles pensam, mas optou pela estratégia de sempre e dos ministros anteriores, “dividir para reinar” ou deixou-se convencer pelos interesses há muito institucionalizados. As organizações que nos representam limitaram o seu discurso a palavras como “inadequadas” ou “insuficientes”. Quem, mais uma vez, viu os seus interesses salvaguardados remeteu-se ao silêncio, quem sentiu, nos últimos anos, a injustiça e a precaridade, e se vê agora beneficiado, aplaudiu, o que faz sentido. No entanto, o que não é compreensível, pelo menos para mim, é olhar para uma proposta destas e ouvir colegas a proferir frases como “finalmente há justiça”. Pergunto eu, justiça em quê e para quem? Se exercemos as mesmas funções, que fundamentos existem para a divisão de professores em diferentes prioridades? Por que razão as escolhas e os problemas pessoais de cada um são um critério na colocação de professores, dando vantagem a uns e prejudicando a maioria? Que tipo de justiça é esta que mantém, há mais de uma década, milhares de professores na precaridade, abusando-se do conceito de necessidades residuais? Teremos nós perdido a consciência da existência do coletivo? De que forma, é que a nossa dignidade e os nossos direitos são mais importantes que a dignidade e os direitos dos demais?

Nenhum de nós é ingénuo ou vive no mundo da fantasia para achar que é possível fazer tábua rasa de tudo o que já foi feito até hoje, que é possível chegar a um modelo que agrade a todos e que contemple todos os interesses individuais, mas persiste a necessidade de uma mudança. Resta-nos encontrar um modelo que se paute pela transparência e equidade, mas não menos importante, que promova a estabilidade, não só dos professores, mas da escola em geral. Um modelo, que na minha opinião, se caracterize pela racionalidade e objetividade. Este teria, como muitos defendem, que assentar num critério objetivo, a graduação profissional, que na minha ótica, seria feita, tendo como primeiro critério, o tempo de serviço efetivo. Um concurso alargado a todo o território nacional, não limitando os professores nas usas escolhas e no acesso ao emprego. A existência de um concurso único, contemplando já na candidatura o pedido de mobilidade, restrita, numa primeira fase, aos docentes com problemas de saúde que exijam tratamento continuado e numa segunda fase, a docentes que peçam mobilidade, por razões pessoais, desde que haja disponibilidade de vaga e que não ultrapasse outro candidato que requeira o mesmo. Nos anos que se seguem, os professores só concorriam às vagas que aparecessem e se efetivamente quisessem. Cada um ocuparia o lugar a que tinha direito, as escolas passavam a contar com um corpo docente estável, os diretores sabiam com o que contar, permitia um melhor conhecimento dos alunos e os professores podiam planificar e organizar a sua vida pessoal a longo prazo.

É verdade que somos milhares, não partilhamos todos das mesmas opiniões e não é fácil alcançar consensos alargados, mas como o problema é nosso, faz sentido que façamos parte da solução e para isso, temos que deixar de nos centrarmos no nosso umbigo, de nos refugiarmos no silêncio ou desviarmos o olhar porque quem está mal que se mexa. Precisamos de organização, coesão, falar a uma só voz e de encontrar uma representação efetiva para todos. Uma classe que apenas tenta sobreviver, dificilmente terá as rédeas do futuro que quer e ao qual tem direito.

Cassilda Coimbra

Professora


Prazer e Sexualidade… no Pré-Escolar???

Eu sou um ignorante quanto ao pré-escolar, mas sou pai e não foi assim há tanto tempo que a minha filha esteve no dito. Por isso, foi com alguma estupefação que vi a capa do JN. Prazer e sexualidade no pré-escolar??? Qualquer leigo na matéria ficaria indignado, e foi essa a minha reação matinal…

Mas depois fui ver o referencial e como podem constatar a partir da página 70, não é assim tão descabido pois está muito distante do estereótipo sexual que nós adultos conhecemos.

A Dra Inês Marques, dos nossos parceiros da Oficina de Psicologia, confirma essa ideia.

A sexualidade não se esgota em relações sexuais. Falar de forma simples da anatomia do corpo das meninas e dos meninos, falar de afectos, como carinho, amizade, amor e respeito, é falar de sexualidade. E isso faz todo o sentido desde a idade pré-escolar. Quanto mais tabu é um tema, mais as crianças olham para ele como algo sobre o qual não é suposto falar-se ou fazer perguntas para esclarecer dúvidas… ficar à espera do “momento chave” para abordar certos assuntos, pode ser perigoso. Portanto, o melhor é descomplicar, estar atento à natural curiosidade das crianças e fornecer-lhes respostas verdadeiras e numa linguagem simples, adequada à sua capacidade de compreensão.

Quanto à abordagem à temática do aborto no 5º ano, julgo que é todo pertinente. Dou aulas num meio onde todos os anos surgem adolescentes grávidas, curiosamente algumas filhas de mães que também engravidaram muito novas. Parece-me por isso lógico aconselhar, quem está na pré-adolescência, dos riscos do aborto e que este não deve ser encarado como um método contracetivo.

Mas fica o aviso, já chega de colocarem os professores a falar sobre determinados assuntos sem terem formação específica. Não somos “pau para toda a obra”, existem especialistas que devem abordar estas temáticas. Já chega o ridículo do cumprimento inflexível de 16 tempos para a Educação Sexual ao longo de um ano letivo, sim tem mesmo de ser 16 tempos, não pode ser 14, 15 ou 17…e todos os anos é ver os diretores de turma a “implorar” aos seus colegas para atingirem a meta estabelecida…

Fica o referencial para consultarem e o link da notícia

Aborto vai ser matéria para alunos do 5.º ano